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Milorde

Novas medidas

Milorde, 01.12.21

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Meus queridos,

Tenho adorado receber tantas visitas na minha humilde mansão para beber chá e conversar. Tenho conhecido dias felizes que me enchem o coração de alegria. Contudo, a partir de hoje, dia 1 de dezembro, todas as minhas visitas deverão apresentar o certificado de vacinação completa ou um teste negativo. Mas atenção, que apenas são válidos os testes PCR ou de antigénio, caso contrário serão submetidos ao teste aqui mesmo pelas mãos da Maria e acreditem que não será de todo agradável, a mulher é bruta!

 

A chegada da Condessa!

Milorde, 31.10.19

- Maria está tudo em ordem? - perguntei pela milésima vez.

- Já lhe disse que sim, homem! Já estou a ficar tonta de tanto o ver a caminhar para trás e para a frente, vai romper a carpete se continua. Sossegue a piriquita!

- Não fale assim Maria! Tenha modos, pelo amor de Deus.

Estava vestido com o meu melhor fato e com a minha melhor gravata que estava de tal modo apertada que mal conseguia respirar. O tempo está fresco mas nem por isso deixo de suar em bica. Estou num estado de ansiedade extrema. A Condessa está a chegar!

Olhando pela janela vejo um mar de gente que, apesar da chuva, não deixaram de estar presentes para testemunhar o grande acontecimento do dia e quiçá do ano. Vejo também jornalistas que aguardam pacientemente, de camera e microfone em punho, para dar a notícia a Portugal inteiro. Nunca na minha vida vi tanta gente prostrada à minha porta.

- Sebastião, quando a Condessa chegar tens de a cumprimentar devidamente com uma vénia não muito exagerada tal como eu te ensinei e dizer "como está, madame" - disse ao rapaz que também estava vestido a rigor e com cara de poucos amigos por ser obrigado a participar daquela cena.

- Eu sei, Milord - respondeu - posso comer alguma coisa, por favor? Estou cheio de fome, ela nunca mais chega.

- Nem penses! Vais esperar como os outros - repreendeu-o a Maria.

Também ela estava vestida a rigor. Não com um vestido, tal como ela queria, mas sim com uma farda (preta e branca) de empregada doméstica que encontrei perdida no sótão. Ao início ela recusou-se a vestir aquilo alegando que cheirava a mofo e a mijo de rato. Fez-me gastar um dinheirão levando-a para a lavandaria (algo que ela poderia perfeitamente fazer em casa), como se me castigasse por a obrigar a usar uma farda, mas eu não posso arriscar fazer figura de ridículo perante a Condessa. A Maria é, de facto, a minha empregada e, então, terá que se vestir como tal.

De repente, ouvimos um burburinho vindo de fora acompanhado com alguns "ah" de exclamação e corremos todos para a porta. O que vi lá fora deixou-me completamente de queixo caído. A Condessa de Champignon chegou... numa limusina! Preta, brilhante.

Atravessamos o pequeno jardim até ao portão que já estava aberto de par em par. Estava instalado o silêncio total. Toda a gente esperava, expectante, para ver a Condessa sair daquela viatura. O mordomo deveria andar pela casa dos 40 anos, de tez morena e com um fino bigode. Estava vestido com um smoking de bom corte, luvas brancas nas mãos finas e um chapéu de chofer. Saiu do lugar do condutor sem dizer palavra e dirigiu-se para o outro lado do carro para abrir a porta de trás.

Mal a Condessa Bernadette saiu da limusina vários flashes obstruíram a minha visão. Ela elevou a sua mão rugosa para proteger os olhos, ligeiramente desconfortável, e reparei que me procurava. Ordenei a todos que parassem com as fotografias com uma voz firme para mostrar a minha posição. A Condessa usava um vestido simples rosa claro.

- Madame, fico muito contente por ver que chegou bem. Como está? - disse fazendo uma vénia.

- Oh, je suis très fatiguée, mais je suis heureuse de bien arriver chez vous, Milord.

Toda as pessoas olharam para ela interrogativos. A Maria deu-me uma cotovelada no braço e acrescentou: - o que é que ela disse??

A Condessa levou a mão à boca para abafar um riso.

- Eu esquecer que estou em Portugal. Desculpe. Estou bem, obrigada.

Toda a gente se riu e aplaudiu enquanto mais flashes disparavam.

- Madame, esta é a Maria, a minha empregada doméstica, e este é o Sebastião, seu filho.

Maria ia aproximar-se dela para a cumprimentar à maneira portuguesa, com dois beijinhos, mas eu consegui trava-la a tempo. Ninguém deve ousar cumprimentar uma Condessa dessa forma. Seria deselegante.

- Enchantée - disse ela dirigindo-lhes um sorriso e um aceno de cabeça.

- De nada minha senhora, de nada! - respondeu a Maria sem perceber ao certo o que a outra tinha dito.

Para a salvar do seu constrangimento, passei para o seguinte assunto, falando-lhe em francês:

- Madame, o Presidente da Junta não pôde estar presente para a receber por motivos pessoais. Mas disse-me para lhe transmitir os seus cumprimentos e que está a preparar uma festa de boas vindas em sua honra. Claro que a festa não poderia ser hoje, a madame está cansada da longa viagem, mas será num dia próximo. Então, convido-a a entrar na minha humilde mansão.

- Oh, merci monsieur! Mas espere, eu trouxe alguém comigo. Pauline, viens ici s'il vous plait.

Saiu do carro uma miúda loira e de uns olhos azuis estupendos. Ela não deveria ter mais do que 13 ou 14 anos. Nem poderia acreditar que a Condessa trouxe outra pessoa com ela sem me consultar primeiro. Mais uma!

A menina Pauline disse Bonjour timidamente e de modos educados. Sebastião não tirava os olhos dela. Mais flashes dispararam.

- Bem... entrem! - Foi tudo o que consegui dizer.

Fechei os portões e preparei-me para a maior aventura da minha vida.

 

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