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Milorde

A saca das sacas

Milorde, 31.05.21

Caros leitores, bom dia! Peço desculpa pela minha ausência. Outros assuntos pessoais e profissionais levaram a este período de ausência tão longo que hoje não poderia deixar de iniciar este texto (humorístico tal como todos os outros, porque isto é um blog de humor) com um pedido de desculpas sincero que espero que compreendam. Prometo ser mais ativo e tentar trazer alguma alegria e gargalhadas a todos vocês a quem a vida poderá estar mais cinzenta ainda devido a esta pandemia que teima a não desaparecer. Como se costuma dizer em jeito de brincadeira, nunca vi algo criado pelos chineses a durar assim tanto tempo!

Bem, pedido de desculpas feito, agora vamos ao que realmente me trouxe até aqui.

Não sei se nas vossas casas existe, mas nesta minha humilde mansão que tão bem conhecem, existe uma saca das sacas. Para quem não sabe o que é, uma saca das sacas é simplesmente uma saca maior onde colocamos todas as outras para que fiquem arrumadas e não espalhadas em todos os cantos das nossas casas.

Posso vos confessar que a minha saca das sacas já atingiu um volume que eu não sei como ainda consigo colocar mais sacas lá dentro. Eu sei que não é nada ecológico mas sempre que vou às compras esqueço-me sempre de levar um saco.

Ora esta manhã fui ao supermercado apenas, dizia eu, para comprar um quilo de laranjas e um frasco de mel. Porém, devido a todas as estratégias de marketing que utilizam, acabei por trazer umas bolachas de arroz com cobertura de iogurte que estavam em promoção, comprei uma embalagem de bebida de aveia porque ficava mais em conta trazer as quatro, e trouxe também um saco de cenouras que trazia mais 25% grátis.

Quando cheguei à caixa e a funcionária me perguntou se queria uma saca, claro que eu disse que sim, caso contrário seria impossível trazer tudo nas mãos. Resumindo, mais uma saca para a saca das sacas! Isto até parece um trava-línguas daqueles que aprendemos na escola.

Por isso, serve este meu texto para vos dizer que: façam o que eu digo e não façam o que eu faço. Levem sempre saco pessoal porque temos que olhar pelo nosso ambiente. Deste lado eu prometo (com os dedos cruzados atrás das costas) que vou tentar, antes de sair de casa para ir ao supermercado, ir sempre até à saca das sacas para trazer uma comigo.

 

Milord vai à bruxa

Milorde, 24.08.20

Esta manhã recebi um panfleto na minha caixa do correio. Estava quase a coloca-lo no lixo quando a Maria apareceu e quis ver o que estava lá escrito.

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Ficou logo toda contente por a Madame não sei das quantas estar na cidade porque, segundo ela, desde que aqui trabalha que sente uma energia negativa nesta casa e que isso não é nada bom.

- Eu nem era para lhe contar isto, Milord, mas esta noite tenho quase a certeza que senti alguém a puxar-me os pés. Não faça essa cara, olhe que é verdade! Eu acho que esta casa está assombrada, por isso é que o Milord está a perder tudo o que tem. Alguém deve ter-lhe colocado mau olhado.

Disse-lhe logo que não acreditava nessas coisas. Mas ela insistiu:

- Olhe que eu ouvi dizer que a Madame Carmecita fez com que um senhor de outra cidade recuperasse toda a sua fortuna.

Mal ela disse aquilo foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Tenho a certeza que até a minha expressão mudou logo porque a Maria fez um sorriso de satisfação.

Decidimos telefonar para marcar uma consulta e, que sorte a nossa, a senhora informou-nos que estava disponível já esta tarde devido a uma desmarcação de uma cliente que se encontrava com gripe.

O seu "consultório" fica numa rua estreita sem saída perto da igreja. Quando chegamos a primeira coisa que me chamou a atenção foram os gatos. 14 pares de olhos verdes observaram-nos como se fôssemos dois ET's que tinham acabado de aterrar. A porta da casa estava aberta e não havia nenhuma campainha a que pudéssemos tocar e, então, entramos cautelosamente.

- Estou aqui! - gritou uma voz. Demos um salto.

- Ai que susto, minha senhora! - disse a Maria com uma mão no peito - mas afinal está aonde?!

- AQUI!

A minha vontade era fugir dali a sete pés.

Demos com a tal senhora numa sala escura, sentada a uma mesa circular, debruçada sobre uma bola de cristal brilhante que refletia várias cores. Abri a boca de espanto!

- O melhor é fechar a boca Milord, senão ainda lhe entra uma mosca - e riu-se da sua própria piada mostrando apenas os dois dentes que tinha na boca.

- Mas como é que a senhora sabe o meu nome?!

- A Madame Carmecita tudo sabe, tudo vê e tudo resolve! E eu sei porque você está aqui.

A Maria, que até então permaneceu calada, aproximou-se sem medo da senhora e explicou-lhe os nossos problemas, falando sem parar até de coisas que eu próprio desconhecia da minha própria casa.

A senhora olhou-me nos olhos e ordenou-me que me aproximasse. Debruçou-se ainda mais na sua bola de cristal e manuseou as suas mão em torno dela. Reparei que tinha umas unhas tão grandes e tão compridas que dei por mim a desejar que ela não tivesse que me tocar. Perguntei-me se ela acariciava os seus gatos. Pobres animais!

- Eu vejo uma luz... - começou por dizer.

- Quer que feche mais os cortinados, Madame? - perguntei.

- CALE-SE!!

- Milord, sinceramente! Deixe a senhora concentrar-se - reclamou a Maria. Eu queria pelo menos um pretexto para sair dali para fora.

A bola de cristal ficou escura durante alguns segundos, depois passou para um tom avermelhado e logo a seguir ficou roxa.

- Hum, muito interessante! - resmungou a mulher.

De repente, ficou escura outra vez. Eu nem respirava. A bola passou a vermelho novamente.

- Que estranho...

- Está a ver alguma coisa Madame? - perguntou a Maria.

- Eu vejo... eu vejo...

Um clarão branco surgiu, iluminando os nossos rostos espantados. Até que, de repente, a mesa começou a tremer e logo depois o chão os nossos pés também. Até se ouvia a louça a tilintar na cozinha que ficava do outro lado da parede.

E... PUF!!! A bola de cristal explodiu.

Mentiras e crenças

Milorde, 14.12.19

Estávamos todos à mesa do pequeno almoço quando ouvimos três fortes pancadas na porta. "Mas quem será a esta hora da manhã?" pensei. A Maria saiu da cozinha alvoraçada e, após ter limpo as mãos ao avental, abriu a porta. A D. Aurora entrou de rompante pela minha sala adentro, vestida com uma das suas saias travadas até ao joelho e uma blusa lisa, e procurou-me com o seu olhar. Levantei-me de um salto e dirigi-me a ela, prometendo-lhe que passaria na sua loja mais tarde para acertarmos contas, antes que ela fizesse um escândalo à frente de todos.

- Esqueça as dívidas, Milord! De nada nos serve o dinheiro - disse-me enquanto me agarrava as mãos num estado de desespero. Os seus olhos estavam apavorados.

Pedi-lhe para se sentar e disse à Maria que lhe trouxesse um copo de água, mas da torneira e sem açúcar, porque Milord tem que economizar. Perguntei à D. Aurora o que se estava a passar.

- Eu li na Internet que o mundo vai acabar na noite da passagem para o novo ano! E desta vez vai ser em fogo!

Ouvi qualquer coisa a partir-se e, quando me virei, vi que as três mulheres estavam horrorizadas com o que acabaram de ouvir, até o Sebastião fitou-nos de boca aberta. Misha continuava a lamber a sua taça em busca de restos de comida e dei graças a Deus por pelo menos aquele pobre animal não perceber nada do que aquela mulher tresloucada estava para ali a dizer.

- Vamos lá ter calma minha gente - disse pacientemente, e virando-me para a D. Aurora: - isso é uma estupidez, mulher! Não devemos acreditar em tudo o que se diz na Internet.

- Isso é verdade - interveio o Sebastião - uma vez li na Internet que fazia mal comer comida para gato e olhe eu ainda estou aqui vivinho da silva.

Todos o olhamos estupefactos. Vi que ele se arrependeu do que tinha acabado de dizer mas, em vez de sentir envergonhado, encolheu os ombros e continuou a comer o seu pão. Bem me pareceu que andava a desaparecer muitas latas de comida do Misha... Decidi ignorar o assunto, por enquanto.

- É como lhe digo D. Aurora, o mundo só acaba para quem morre.

- Não, não, não - a mulher abanava constantemente a cabeça - tenho a certeza que o que li é verdade. O artigo citava passagens da bíblia que eu mesma fui confirmar. Uma desgraça que se vai abater sobre nós!

Apesar de não perceber muito bem o português, Pauline foi a correr sentar-se no colo da avó em busca de conforto. Ela falou-lhe algumas palavras em francês para que não se afligisse, seria provavelmente uma brincadeira de mau gosto. Eu não lhe chamaria brincadeira, mas sim ignorância pura.

Tentei a todo o custo tirar aquelas ideias malucas da cabeça da D. Aurora, mas a mulher estava irredutível. Perguntou-me se tinha alguma bíblia em casa para me mostrar as passagens para comprovar que o que ela estava a dizer tinha algum fundamento. Disse-lhe que lamentava mas não tinha nenhuma.

- Nós vamos realizar uma novena na igreja para que o Senhor tenha piedade de nós, e eu vim cá para vos convidar e dizer que é importante a vossa presença lá. Precisamos de estar todos unidos nesta hora para que Deus tenha compaixão de nós.

Disse-lhe que era uma parvoíce e que me recusava a participar em semelhante coisa. Porém, a Maria respondeu que sim, iríamos todos à novena, que mal não faria. Sorte a minha!

A D. Aurora ficou mais satisfeita com a resposta e, com mais algumas palavras religiosas, despediu-se de nós e ao sair fez o sinal da cruz. Permaneceu um silêncio total nesta mansão durante o dia de hoje.

É impressão minha ou esta gente anda toda maluca?!

 

Desabafos

Milorde, 13.12.19

Depois que a Condessa chegou nunca mais tive oportunidade de me sentar na minha poltrona de sala a apreciar um bom livro enquanto a chuva tamborilava na minha janela. Agora, para mal dos meus pecados, todos os dias a Condessa se senta lá com o seu romance erótico e consegue passar lá horas, interrompendo a leitura ocasionalmente apenas para fazer algum comentário depreciativo. Ora tem frio, ora tem calor; dói-lhe os joelhos de estar tanto tempo sentada ou então dói-lhe as costas; a graduação dos óculos já não é suficiente; sente-se aborrecida com o tempo; etc, etc e etc.

Eu a Maria dobramos-nos em trabalhos para a agradar mas tem sido difícil. Creio que o seu problema de saúde não se estenda somente a uma pneumonia mas também a um grave problema de saúde mental. Sei que não é bonito dizer isto mas também sei que posso contar com a vossa confiança e pelos comentários que tenho recebido, sei que estão do meu lado da barcaça contra esta intrusa que se veio instalar na minha mansão, aproveitando-se da minha boa vontade.

Quanto a Pauline, a sua neta, mal damos por ela, coitada! Sempre muito reservada, talvez por falar mal a nossa língua, passa os seus dias a bordar juntamente com a Maria e a ajuda-la na cozinha no que pode, para não se sentir tão entediada confessou-me ela certo dia. Uma vez, ao jantar, disse-nos que tinha sido ela a preparar a sopa sozinha sem ajuda. A sopa estava muito salgada mas nenhum de nós ousou dizer o que quer que fosse para não a desmotivar. Sebastião até disse que nunca tinha comido uma sopa tão boa, fazendo-a corar como um tomate. Bebi tanta água depois que passei quase a noite toda na casa de banho, temi encher a sanita toda.

Esta noite tive um pesadelo horrível. Sonhei que quando cheguei à minha mansão depois de uma caminhada, a Condessa tinha-se evaporado e com ela todos os meus pertences. A mansão estava vazia! O pior de tudo é que ela também tinha levado consigo a Maria e o Sebastião.

Comunicado

Milorde, 10.12.19

Meus queridos,

Antes demais peço desculpa pela minha ausência. Milord esteve sem internet cá em casa por falta de pagamento da fatura. Todas as minhas economias foram para pagar o IMI desta mansão, um valor que quase me derrubou da cadeira onde estava sentado nas finanças. Quase que teria lá uma síncope sem que ninguém me pudesse socorrer, mas não dei parte fraca e comportei-me como um cavalheiro que dá o peito às balas, efetuando o pagamento em dinheiro vivo, pois Milord não confia nos bancos para o guardar.

Mal cheguei à mansão a Condessa perguntou se me estava a sentir bem porque segundo as suas palavras estava pálido como uma cera. Disse-lhe que estava um pouco indisposto e nessa noite não jantei apesar dos protestos da Maria.

Tenho muitas mais histórias para partilhar convosco mas hoje fico-me por aqui. Serve o presente texto para vos dizer somente que me encontro vivo e de boa saúde.

Com os melhores cumprimentos.

Dívidas

Milorde, 08.11.19

A Maria anda atulhada de trabalho. Todos os dias ela prepara as refeições, levanta a mesa, lava a loiça, trata da roupa e faz a limpeza da mansão. Certo dia disse-me, em tom de brincadeira mas falando a sério, que quando a Condessa e a sua neta regressassem às suas casas, que precisava de férias. Talvez fosse visitar a sua mãe que vivia numa aldeia a 20 quilómetros de distância daqui, durante duas semanas, o que me deixou alarmado pois se tal acontecesse iria voltar aos meus dias de solidão com o Misha. Tenho de pensar seriamente em oferecer-lhe um salário para a motivar mas não sei como... tenho gasto todas as minhas economias e peças de prata para sustentar os caprichos da Condessa.

Sempre que a Maria vai ao talho comprar alguma carne, o Sr. Constantino diz-lhe que a conta está a aumentar de dia para dia, e pede que eu lhe vá fazer uma visita para "acertarmos contas". Certamente que não me vai oferecer uma chávena de chá enquanto conversarmos.

Enquanto estou a escrever este texto, alguém bate à porta e eu, por instinto, sussurro à Maria que diga, a quem quer que seja, que eu não estou.

- Quero falar com sua senhoria, Milord - ouço a voz da D.ª Aurora da mercearia.

- Oh lamento Aurora, Milord acabou de sair.

- Não me venhas com essa conversa Maria, eu sei bem que ele está em casa. Se ele não me receber eu vou começar aqui aos berros a dizer o quanto ele me deve. Faço um escândalo!

Levantei-me de um salto e corri para a porta.

- Oh D.ª Aurora, que prazer que tenho em recebê-la na minha humilde mansão, faça o favor de entrar - retorqui.

Ela entra e cruza os braços sobre o peito olhando-me com má cara. Ordeno à Maria que prepare  um chá para a nossa amiga.

- Não seja hipócrita, Milord. Eu não quero chá nenhum. Venho aqui receber o que me deve.

Entrega-me um papel com a soma total do meu fiado. Fico horrorizado! No papel está tudo descrito, os produtos e os seus valores, com uma soma total de 100€. Porém, ao reparar pormenorizadamente na lista, vejo coisas que desconheço ter pedido, tais como: lâminas de barbear, pastilhas elásticas, cerveja e uma caixa de preservativos.

- Desculpe minha senhora, mas há aqui coisas na lista que eu não comprei! - reclamei.

- Pois claro que não, Milord. O senhor vive com mais gente em casa, não sei se sabe - respondeu-me a D.ª Aurora.

Não precisei de pensar muito para perceber quem tinha comprado aquelas coisas e colocado na minha conta. O Sebastião vai ouvir das boas quando chegar a casa da escola!

Resignado, peguei na minha carteira e retirei todas as notas que lá continha. Fiquei a olhar para elas, triste. A D.ª Aurora arrancou-mas das mãos, contou-as uma por uma e depois colocou-as por dentro da camisola, no sutiã.

- Muito obrigado, Milord, e até à próxima - disse e saiu.

- Quando eu apanhar aquele marmanjo, vou-lhe puxar aquelas orelhas até ele me confessar para quem ele anda a comprar as cervejas, porque eu não acredito Milord que ele beba qualquer bebida alcoólica. Sei bem que o meu filho não é um santo mas também não é alcoólico.

- Pois, pois - foi tudo o que consegui dizer.

 

Os cogumelos

Milorde, 07.11.19

Esta manhã a Condessa estava mais bem disposta. Disse que dormiu bem, apesar da tosse que todas as noites a importuna, e que hoje queria ir dar um passeio pela aldeia. Bem que precisa, pensei cá para comigo. Não sei se já referi mas a Condessa Bernadette é uma senhora de bom porte, pesa cerca de 90 quilos, e um pouco de exercício físico não só fará bem para a sua saúde como para o seu corpo. Disse-lhe que a acompanhava.

- Pauline, minha querida, queres vir connosco? - perguntou-lhe a Madame.

- Ah... não! Prefiro ficar com a Marie.

Maria tem-lhe ensinado a fazer ponto cruz, algo que pensava estar fora de moda, mas a miúda tem sido bastante aplicada e tem feito trabalhos muito bonitos.

Saímos para o ar fresco da manhã. O sol espreitava timidamente por entre as nuvens após alguns dia chuva, e o chão estava coberto de folhas coloridas que caíam das árvores a todo o instante. Estava bastante agradável a nossa caminhada, porém, depois de alguns minutos, a Condessa disse:

- Ai não aguento, vou sentar-me ali naquelas pedras para repousar um pouco! Já estou cansada.

- Mas... Madame nós só caminhamos apenas uns 100 metros!

- E então? Você pensa que tenho a sua idade, Milord?

Sentou-se e retirou da sua mala um leque florido para o abanar um pouco contra o seu rosto. Sentei-me junto a ela e fiquei a observar as árvores que ficavam cada vez mais nuas. Entretanto, a Condessa guardou o leque na sua mala para depois tirar os seus óculos de leitura e um livro de bolso. Realmente as bolsas das mulheres estão sempre cheias de coisas. Reparei que na capa do livro estava uma mulher vestida com saia curta e uns collants pretos. O título era: Je suis une secrétaire soumise a ses patrons. [Eu sou uma secretária submissa aos meus patrões]. Um romance erótico!

Nem queria acreditar. Fiquei chocado! Nem a minha boca abri e continuei a observar as árvores. Contudo, de repente, ela levanta os olhos do livro e fica a olhar especada para o outro lado da rua.

- Não posso acreditar. C'est des champignons!

Apontou para uns cogumelos que cresciam junto a umas árvores no mato em frente. Disse-lhe que jamais comeria daqueles cogumelos que provavelmente eram venenosos. Ela bateu-me com o livro no braço.

- Não diga disparates, seu estúpido! Aqueles cogumelos são ótimos. Vamos apanha-los para o almoço.

Guardou as suas coisas na mala e levantou-se. Atravessou a rua em passos acelerados, já cheia de uma renovada energia vinda não sei de onde, e subiu o pequeno muro para o mato.

- Tenha atenção, Madame! - dizia eu com receio.

Agachou-se e apanhou-os a todos, ficando com as mão todas sujas de terra, uma imagem que nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que uma Condessa mandava os outros fazer o trabalho por si.

- Oh, ali ao fundo tem mais.

- Deixe-se estar que aqueles eu apanho-os, Madame!

Mas ela nem ligou, continuou a caminhar na direção dos outros cogumelos e eu seguia-a com todo o cuidado pois o chão estava húmido da chuva. Quando estava a chegar junto dos outros cogumelos, a Condessa desequilibrou-se e com um grito caiu desamparada com a cara no chão!

- Oh Deus! Madame está bem?! - perguntei alarmado enquanto a ajudava a levantar-se. Estava com a cara toda suja de lama.

- Deixe, Milord. Eu perdi a vontade de comer cogumelos!

Entramos em casa e mandei logo a Maria preparar um banho quente para a Madame.

Uma manhã atribulada

Milorde, 04.11.19

Amanheceu. Acordei com o Misha a arranhar a porta do meu quarto para me pedir comida. Levantei-me e desci até à cozinha para lhe dar um pouco de leite. Estranhei a casa ainda estar em silêncio mas, como ontem foi dia de festa, é natural que estivessem todos a descansar. Fiz um café para mim e sentei-me na minha poltrona, na sala de estar, a ler um jornal antigo que guardo para fazer as palavras cruzadas. Porém, ouço passos lá em cima e vejo a Maria a descer as escadas esbaforida.

- Passa-se alguma coisa, Maria?

- Ela está a cagar-se toda lá em cima, Milord. Eu não aguento, juro-lhe que não aguento! - respondeu-me.

Corri escadas acima e encontrei a Condessa pálida como a cera de uma vela, ainda de robe, sentada na cama. Perguntei-lhe o que se passava com ela.

- Oh, je suis malade! - respondeu-me.

- Mas o que aconteceu, Madame? Está tão pálida!

- Foi a salada de fruta, Milord! Tinha kiwi et je suis allergique ao kiwi.

- Oh, lamento Madame... eu não sabia!

Bonito. Agora a Condessa está com uma intoxicação alimentar. A Maria chegou ao quarto com uma banana cortada às rodelas, dizendo que era bom para prender o intestino. Depois colocou uma máscara, como aquelas que os médicos usam, para poder ir limpar a casa de banho.

Pauline sentia-se tão perdida no meio daquele caos que tive pena dela e pedi-lhe para me acompanhar na mesa do pequeno-almoço. A Condessa não desceu, preferiu ficar mais um pouco nos seus aposentos. Sebastião juntou-se-nos e dirigiu-lhe um sorriso caloroso. Disse que esteve ontem à noite a aprender um pouco de francês para melhor se comunicar com as nossas visitas. Agradeci-lhe o gesto, contudo, para mostrar o que sabia, virou-se para ela e disse:

- Voulez-vous coucher avec moi, ce soir! [Quer deitar-se comigo esta noite?]

A Pauline ficou chocada e deu-lhe um estalo na cara. Correu escadas acima para ir ter com a avó.

- Que é que eu disse de mal? - perguntou.

Fiz-lhe a tradução e ele jurou-me que não sabia qual era o significado, que aprendeu aquelas palavras com uma canção, achou-as tão bonitas e quis impressionar.

Parece que não está nada fácil a situação.

O jantar

Milorde, 02.11.19

Quando finalmente entramos na mansão, o céu já escurecia. Mostrei à Condessa os seus aposentos para que pudesse descansar um pouco da viagem antes do jantar. Mandei a Maria preparar mais um quarto de hóspedes para a Pauline, a nossa convidada surpresa, que pelo que consegui apurar, é uma neta da Madame da qual não tinha conhecimento.

A mesa já estava posta com a melhor loiça, talheres e copos que consegui reunir. Tudo reluzia à luz das velas que lhe conferiam um aspeto de nobreza. Vinha um cheiro fenomenal da cozinha! Contratei um cozinheiro especializado na cozinha francesa para preparar o nosso primeiro jantar, a Maria não conseguiria dar conta de tudo sozinha, coitada já estava a fazer um esforço enorme! Tudo estava a correr bem, não havia nada que me preocupasse... até ao momento em que se ouviu um grito.

Corri desenfreadamente até ao quarto da Condessa e encontrei-a em cima de uma cadeira ainda a gritar e escondendo o rosto com as mãos. Toda a gente veio também a correr ver o que se passava.

- O que se passa, Madame? Porque gritais dessa forma?

Ela tirou uma mão da cara e apontou para um canto da parede.

- Está ali uma... uma... aranha!!

Outro grito fez-se ouvir, mas desta vez era Pauline que gritava e foi logo a correr colocar-se em cima da cama, imitando a avó.

- Tenham calma, senhoras. Eu já vou buscar uma vassoura - prontificou-se a Maria. Momentos depois estava ela a bater com a vassoura no chão para matar a tal aranha, e de cada vez que ela batia, as duas gritavam como se estivessem possuídas.

Pedi imensas desculpas às duas, assegurando-lhes que tudo estava bem limpo e desinfetado, desconhecendo totalmente de onde aquela maldita aranha surgiu. Os ânimos acalmaram um pouco depois e dirigimos-nos todos para a sala de jantar.

A Condessa Bernadette pediu como aperitivo, e também para se acalmar, um cálice de vinho do porto. Bebeu-o de um só trago o que me deixou estupefacto. Aquela senhora está bem mais habituada à bebida que eu.

- Deseja tomar outro Madame? - perguntei-lhe mais por formalidade, pensando mesmo que ela iria recusar.

- Oui, s'il vous plait - respondeu-me prontamente estendendo-me o cálice.

O jantar foi servido as 20 horas em ponto. Travessas fumegantes cheias de peru assado foram colocadas em cima da mesa, acompanhas por batatas alouradas com tomilho e terrinas de salada. Tudo estava delicioso! A conversa estava animada, a Condessa ria despudoradamente das minhas piadas secas, Pauline fazia festas ao Misha que encontrou um novo colo, enquanto o Sebastião debatia-se em comer uma coxa de peru com os talheres. Acabou por desisitir e pegou na coxa com a mão, o que lhe valeu um olhar não muito simpático da mãe.

Chegou a hora da sobremesa. A Condessa dizia estar já empanturrada e pediu apenas uma salada de fruta. Pauline pediu uma mousse au chocolat e o Sabastião imitou-a. Eu não quis comer sobremesa. Porém, sem que nada o fizesse prever, a Condessa engasgou-se com um pedaço de fruta. Começou a tossir ligeiramente, depois mais violentamente até que me vi aflito pois ela não conseguia respirar e já estava vermelha de tanto esforço.

- Batem-lhe nas costas - gritou a Maria. Mas não fui a tempo. Quando dei por ela, já ela estava atrás da Madame e deu-lhe um sopapo tão grande que a pobre mulher cuspiu a prótese dentária para o copo do vinho.

O Sebastião desatou a rir às gargalhadas. A Maria desculpou-se e eu nem sabia o que dizer. A Condessa retirou a prótese do copo, voltou a coloca-la na boca, disse estar indisposta e foi para o quarto descansar.

E assim acabou o nosso jantar.

A chegada da Condessa!

Milorde, 31.10.19

- Maria está tudo em ordem? - perguntei pela milésima vez.

- Já lhe disse que sim, homem! Já estou a ficar tonta de tanto o ver a caminhar para trás e para a frente, vai romper a carpete se continua. Sossegue a piriquita!

- Não fale assim Maria! Tenha modos, pelo amor de Deus.

Estava vestido com o meu melhor fato e com a minha melhor gravata que estava de tal modo apertada que mal conseguia respirar. O tempo está fresco mas nem por isso deixo de suar em bica. Estou num estado de ansiedade extrema. A Condessa está a chegar!

Olhando pela janela vejo um mar de gente que, apesar da chuva, não deixaram de estar presentes para testemunhar o grande acontecimento do dia e quiçá do ano. Vejo também jornalistas que aguardam pacientemente, de camera e microfone em punho, para dar a notícia a Portugal inteiro. Nunca na minha vida vi tanta gente prostrada à minha porta.

- Sebastião, quando a Condessa chegar tens de a cumprimentar devidamente com uma vénia não muito exagerada tal como eu te ensinei e dizer "como está, madame" - disse ao rapaz que também estava vestido a rigor e com cara de poucos amigos por ser obrigado a participar daquela cena.

- Eu sei, Milord - respondeu - posso comer alguma coisa, por favor? Estou cheio de fome, ela nunca mais chega.

- Nem penses! Vais esperar como os outros - repreendeu-o a Maria.

Também ela estava vestida a rigor. Não com um vestido, tal como ela queria, mas sim com uma farda (preta e branca) de empregada doméstica que encontrei perdida no sótão. Ao início ela recusou-se a vestir aquilo alegando que cheirava a mofo e a mijo de rato. Fez-me gastar um dinheirão levando-a para a lavandaria (algo que ela poderia perfeitamente fazer em casa), como se me castigasse por a obrigar a usar uma farda, mas eu não posso arriscar fazer figura de ridículo perante a Condessa. A Maria é, de facto, a minha empregada e, então, terá que se vestir como tal.

De repente, ouvimos um burburinho vindo de fora acompanhado com alguns "ah" de exclamação e corremos todos para a porta. O que vi lá fora deixou-me completamente de queixo caído. A Condessa de Champignon chegou... numa limusina! Preta, brilhante.

Atravessamos o pequeno jardim até ao portão que já estava aberto de par em par. Estava instalado o silêncio total. Toda a gente esperava, expectante, para ver a Condessa sair daquela viatura. O mordomo deveria andar pela casa dos 40 anos, de tez morena e com um fino bigode. Estava vestido com um smoking de bom corte, luvas brancas nas mãos finas e um chapéu de chofer. Saiu do lugar do condutor sem dizer palavra e dirigiu-se para o outro lado do carro para abrir a porta de trás.

Mal a Condessa Bernadette saiu da limusina vários flashes obstruíram a minha visão. Ela elevou a sua mão rugosa para proteger os olhos, ligeiramente desconfortável, e reparei que me procurava. Ordenei a todos que parassem com as fotografias com uma voz firme para mostrar a minha posição. A Condessa usava um vestido simples rosa claro.

- Madame, fico muito contente por ver que chegou bem. Como está? - disse fazendo uma vénia.

- Oh, je suis très fatiguée, mais je suis heureuse de bien arriver chez vous, Milord.

Toda as pessoas olharam para ela interrogativos. A Maria deu-me uma cotovelada no braço e acrescentou: - o que é que ela disse??

A Condessa levou a mão à boca para abafar um riso.

- Eu esquecer que estou em Portugal. Desculpe. Estou bem, obrigada.

Toda a gente se riu e aplaudiu enquanto mais flashes disparavam.

- Madame, esta é a Maria, a minha empregada doméstica, e este é o Sebastião, seu filho.

Maria ia aproximar-se dela para a cumprimentar à maneira portuguesa, com dois beijinhos, mas eu consegui trava-la a tempo. Ninguém deve ousar cumprimentar uma Condessa dessa forma. Seria deselegante.

- Enchantée - disse ela dirigindo-lhes um sorriso e um aceno de cabeça.

- De nada minha senhora, de nada! - respondeu a Maria sem perceber ao certo o que a outra tinha dito.

Para a salvar do seu constrangimento, passei para o seguinte assunto, falando-lhe em francês:

- Madame, o Presidente da Junta não pôde estar presente para a receber por motivos pessoais. Mas disse-me para lhe transmitir os seus cumprimentos e que está a preparar uma festa de boas vindas em sua honra. Claro que a festa não poderia ser hoje, a madame está cansada da longa viagem, mas será num dia próximo. Então, convido-a a entrar na minha humilde mansão.

- Oh, merci monsieur! Mas espere, eu trouxe alguém comigo. Pauline, viens ici s'il vous plait.

Saiu do carro uma miúda loira e de uns olhos azuis estupendos. Ela não deveria ter mais do que 13 ou 14 anos. Nem poderia acreditar que a Condessa trouxe outra pessoa com ela sem me consultar primeiro. Mais uma!

A menina Pauline disse Bonjour timidamente e de modos educados. Sebastião não tirava os olhos dela. Mais flashes dispararam.

- Bem... entrem! - Foi tudo o que consegui dizer.

Fechei os portões e preparei-me para a maior aventura da minha vida.

 

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