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Milorde

E a Condessa partiu!

Milorde, 15.09.21

Ah esperem... deixem-me só limpar algumas teias de aranha que se instalaram aqui.

- Maria, traga-me cá uma vassoura, por favor!

Ai que horror! Uma pessoa deixa de vir cá por uns tempos e as aranhas tratam logo de tecer as suas teias para apanharem as moscas que, coitadas!, andam aqui a voar de um lado para o outro como bestas.

Bem, agora parece-me bastante melhor!

 

Caríssimos,

Voltei aqui para vos dar uma excelente notícia... a Condessa partiu! É verdade, esta manhã a senhora fez as suas malas e, de cabeça erguida, partiu para terras francesas. Dizia ela que lhe faltava o seu fromage camembert, o seu foie gras, os escargots de Bourgogne, e claro o seu Champagne Français.

Já vais tarde! - apeteceu-me dizer-lhe mas também eu mantive a classe que a situação exigia.

 

Agora somos apenas três; eu, a Maria e o Sebastião. Ah, e o misha! Ia me esquecendo do raio do gato!

E atenção, porque estou aqui com umas ideias novas para este meu estaminet que espero que vão gostar. Fiquem desse lado, eu volto amanhã, prometo!

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O Milord do quotidiano

Milorde, 02.09.20

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Santo António com o Menino Jesus em pintura de Stephan Kessler

 

A Maria colocou uma jarra de sumo arroxeado em cima da mesa para o pequeno-almoço. Olhei-a interrogativamente.

- É sumo de ameixa, Milord. Ajuda a melhorar a sua prisão de ventre - esclareceu-me - e, antes que pergunte, não as comprei. Roubei algumas do quintal da vizinha.

- Maria, começo a gostar cada vez mais de si!

A fruta está caríssima! Até eu, quando vou fazer as minhas caminhadas, roubo (ou melhor dizendo, pego!) alguns pêssegos do quintal do Sr. Abílio. Bolinhas, a sua cadela de estimação, já é velha e não consegue correr atrás de mim, então limita-se a fitar-me com aqueles olhos mortiços, abre a boca de sono e deita o focinho nas patas dianteiras, fazendo de conta que não me vê. É tão fácil!

Todos descem a escadaria da minha mansão que range sob o peso dos seus pés para se sentarem à mesa. Sebastião é o primeiro a servir-se. Lá diz a música: "Sebastião come tudo, tudo, tudo...".

O burburinho instala-se, já não consigo ouvir os acordes de Vivaldi do rádio que me relaxam, um outro dia que começa. No entanto, a emissão é interrompida para uma notícia de última hora:

"Continuam os roubos de arte sacra na nossa aldeia, e desta vez foi na igreja. Mais imagens de santos foram roubadas, unclusive a do Santo padroeiro da nossa aldei, o Santo António e, ao que consegui apurar, também desapareceram uns ténis de marca que pertenciam ao sr. Padre e umas moedas que o próprio deixou na sacristia para no dia seguinte comprar pão. O sr. Padre está transtornado porque, ao que parece, não ouviu um único som devido à telenovela que estava a assistir na televisão."

Logo depois ouviu-se a voz do padre:

"Eu coloco o volume da televisão no 50 sabe, a minha audição já não é o que era, e estava a prestar muita atenção porque era no episódio de ontem que se ia descobrir que a mulher estava a cometer um adultério com o melhor amigo do marido, e olhe não dei por nada!"

A voz da jornalista voltou a ouvir-se:

"A população está indignada! Ainda no dia de hoje vai haver uma manifestação à porta da GNR da aldeia que, segundo os habitantes, vai acontecer entre as 18 e as 19 horas, porque a seguir é hora do jantar e no restaurante do Matias vai haver porco no espeto".

A emissão foi retomada mas com outra música diferente, desta vez a Ágata cantava que prefere estar sozinha. A Maria ficou com um ar triste.

- Roubaram a imagem de Santo António. E agora, a quem vou eu pedir um novo marido?

- Ó mãe, sinceramente, não acha que já está um pouco velha para isso? - perguntou o Sebastião.

A Maria deu-lhe uma sapatada na nuca que o rapaz quase batia com o nariz no prato.

- Tu cala-te, que a conversa ainda não chegou ao galinheiro!

A Condessa, que até então estivera muda, deu o ar de sua graça:

- Eu vou dar uma pequena doação à igreja, e acho que deveria fazer o mesmo, mon cher Milord.

Todos os olhares se puseram em mim. Engasguei-me com um pedaço de pão e, se não fosse a Maria a bater-me nas costas, estava a ver que morria sufocado. Esta mulher endoideceu!

- Ça va, Milord?

- Ah oui, madame! Tout va bien. Eu vou pensar no assunto com carinho, prometo - disse para terminar o assunto.

A Maria deu uma gargalhada e disse bem alto, a caminho da cozinha: desista senhora, esse aí não abre a mão nem para dizer adeus!

 

Milord vai à bruxa

Milorde, 24.08.20

Esta manhã recebi um panfleto na minha caixa do correio. Estava quase a coloca-lo no lixo quando a Maria apareceu e quis ver o que estava lá escrito.

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Ficou logo toda contente por a Madame não sei das quantas estar na cidade porque, segundo ela, desde que aqui trabalha que sente uma energia negativa nesta casa e que isso não é nada bom.

- Eu nem era para lhe contar isto, Milord, mas esta noite tenho quase a certeza que senti alguém a puxar-me os pés. Não faça essa cara, olhe que é verdade! Eu acho que esta casa está assombrada, por isso é que o Milord está a perder tudo o que tem. Alguém deve ter-lhe colocado mau olhado.

Disse-lhe logo que não acreditava nessas coisas. Mas ela insistiu:

- Olhe que eu ouvi dizer que a Madame Carmecita fez com que um senhor de outra cidade recuperasse toda a sua fortuna.

Mal ela disse aquilo foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Tenho a certeza que até a minha expressão mudou logo porque a Maria fez um sorriso de satisfação.

Decidimos telefonar para marcar uma consulta e, que sorte a nossa, a senhora informou-nos que estava disponível já esta tarde devido a uma desmarcação de uma cliente que se encontrava com gripe.

O seu "consultório" fica numa rua estreita sem saída perto da igreja. Quando chegamos a primeira coisa que me chamou a atenção foram os gatos. 14 pares de olhos verdes observaram-nos como se fôssemos dois ET's que tinham acabado de aterrar. A porta da casa estava aberta e não havia nenhuma campainha a que pudéssemos tocar e, então, entramos cautelosamente.

- Estou aqui! - gritou uma voz. Demos um salto.

- Ai que susto, minha senhora! - disse a Maria com uma mão no peito - mas afinal está aonde?!

- AQUI!

A minha vontade era fugir dali a sete pés.

Demos com a tal senhora numa sala escura, sentada a uma mesa circular, debruçada sobre uma bola de cristal brilhante que refletia várias cores. Abri a boca de espanto!

- O melhor é fechar a boca Milord, senão ainda lhe entra uma mosca - e riu-se da sua própria piada mostrando apenas os dois dentes que tinha na boca.

- Mas como é que a senhora sabe o meu nome?!

- A Madame Carmecita tudo sabe, tudo vê e tudo resolve! E eu sei porque você está aqui.

A Maria, que até então permaneceu calada, aproximou-se sem medo da senhora e explicou-lhe os nossos problemas, falando sem parar até de coisas que eu próprio desconhecia da minha própria casa.

A senhora olhou-me nos olhos e ordenou-me que me aproximasse. Debruçou-se ainda mais na sua bola de cristal e manuseou as suas mão em torno dela. Reparei que tinha umas unhas tão grandes e tão compridas que dei por mim a desejar que ela não tivesse que me tocar. Perguntei-me se ela acariciava os seus gatos. Pobres animais!

- Eu vejo uma luz... - começou por dizer.

- Quer que feche mais os cortinados, Madame? - perguntei.

- CALE-SE!!

- Milord, sinceramente! Deixe a senhora concentrar-se - reclamou a Maria. Eu queria pelo menos um pretexto para sair dali para fora.

A bola de cristal ficou escura durante alguns segundos, depois passou para um tom avermelhado e logo a seguir ficou roxa.

- Hum, muito interessante! - resmungou a mulher.

De repente, ficou escura outra vez. Eu nem respirava. A bola passou a vermelho novamente.

- Que estranho...

- Está a ver alguma coisa Madame? - perguntou a Maria.

- Eu vejo... eu vejo...

Um clarão branco surgiu, iluminando os nossos rostos espantados. Até que, de repente, a mesa começou a tremer e logo depois o chão os nossos pés também. Até se ouvia a louça a tilintar na cozinha que ficava do outro lado da parede.

E... PUF!!! A bola de cristal explodiu.

O assalto

Milorde, 20.05.20

A funerária Alves & Costa foi assaltada esta noite. Soube-o através do jornal local que um moço de recados me traz todos os dias pela manhã. Segundo o relatório da GNR, os assaltantes entraram pela janela da casa de banho que se encontrava aberta para arejar o espaço, e roubaram várias imagens de santos e um terço que, segundo diz o proprietário, era benzido.

- Este mundo está perdido - disse-me a Maria enquanto me servia uma chávena de café.

- Tenha atenção, mulher! Está a borrar a mesa toda com café!

- Ai desculpe, meu lord. É que eu fico revoltada com estas coisas! Até os santos lhe servem... havia de lhes nascer um corno no c...

- Maria, por favor, poupe-me aos seus comentários.

Esta mulher nunca mais aprende que não se pode dirigir a mim com palavras impróprias.

O Sebastião, que estava sentado ao me lado, começou a comer a sua torrada com a boca aberta e isso irritou-me profundamente que saí da mesa e fui sentar-me no meu cadeirão na sala para continuar a ler o meu jornal.

O senhor Diamantino Alves & Costa alega que ultimamente tinha recebido algumas ameaças anónimas através de telefonemas anónimos que lhe diziam, com um pano à frente da boca, que se ele não baixasse o preço das urnas que ia sofrer as consequências.

Diz, também, que tudo o que os assaltantes levaram, deram-lhe um prejuízo de quase três mil euros e pediu para que todos os habitantes lhe ajudassem com alguma coisa, nem que fosse com uma lata de atum.

 

Máscaras

Milorde, 05.05.20

Depois de percorrer todas as farmácias que conheço, da aldeia e das cidades vizinhas, encontrei máscaras descartáveis a 90 cêntimos! Comprei cinco, uma para cada um, e já gastei muito dinheiro. Onde já se viu um homem como eu, que deveria estar em casa porque já sou considerado uma pessoa de risco, ter de ir à farmácia com um tecido grosso que a Maria costurou numa tentativa de fazer as suas próprias máscaras, a tapar-me a boca e dificultando-me a respiração, para comprar máscaras para aquela gente toda que só sabe comer e dormir?!

O farmacêutico realçou que as máscaras que comprei são descartáveis, ou seja, são para usar uma vez e deitar fora. Mas o que é que ele tem na cabeça? Eu não vou gastar esta quantia de dinheiro todos os dias... É que nem pensar! Ele é que não sabe o dinheiro que gasto todos os meses em medicamentos para o meu reumatismo senão até se comovia e me oferecia as máscaras.

Mal cheguei a casa, disse à Maria que tinha que costurar mais máscaras mas desta vez com um tecido mais fino, porque as calças velhas do Sebastião que ela usa são muito grossas e eu não consigo respirar. Ela respondeu-me que não tinha tecido fino. Sugeri que utilizasse alguns dos vestidos da Condessa e a senhora ficou tão chocada que não me falou durante o resto do dia. Ela não é nada solidária!

 

Cabeleireiro procura-se

Milorde, 23.04.20

A Condessa diz que precisa urgentemente de um cabeleireiro. Já lhe disse inúmeras vezes que estão todos fechados e que nenhum corre o risco de vir cá a casa para lhe cortar e arranjar o cabelo, por mais dinheiro que ela lhe ofereça.

A Maria já se disponibilizou para lho cortar mas eu disse que não seria uma boa ideia. O Sebastião diz que ainda se lembra das tesouradas que ela lhe dava quando a franja lhe tapava os olhos.