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Milorde

Abandonada

Milorde, 19.10.23

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Há uma música da Fafá de Belém que se chama Abandonada. Ouvi essa música imensas vezes quando era criança, tantas que ainda hoje sei a letra de cor. Tínhamos um rádio pequeno com um leitor de CDs que não funcionava muito bem, por vezes era preciso dar-lhe uma pancada para que a música começasse a soar, mas quando a minha mãe o conseguia pôr a funcionar era aquela música que tocava, e quando acabava ela voltava para trás para a ouvir uma e outra vez.

É uma canção triste em que a cantora brasileira diz o quanto sofre por ter sido abandonada por alguém. A minha mãe revia-se totalmente na letra, diria mesmo que aquela canção tinha sido escrita para ela, que demonstrava o quanto estava a sofrer por o meu pai nos ter abandonado.

Eu olhava para a minha mãe e via a angústia, a tristeza, o desgosto. Enquanto a música tocava ela ficava com o olhar vazio, perdida nas suas memórias. Tantas vezes que acordei durante a noite com o barulho dos seus soluços abafados pelos cobertores. A minha mãe sofreu muito!

Por vezes as pessoas me perguntam: porque não sais de casa e vais viver a tua vida? Porque ainda vives com a tua mãe aos 37 anos?

A resposta é simples. Porque nunca a vou abandonar! Jamais iria suportar ver novamente o sofrimento dela por estar sozinha. Viva o tempo que a minha mãe viver, eu vou estar SEMPRE junto dela.

 

Caprichos de mãe

Milorde, 11.09.23

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A minha mãe não foi trabalhar porque teve uma consulta no centro de saúde. Quando chegou a casa disse:

- Ai não quero cozinhar, hoje vamos almoçar no restaurante chinês, já há muito tempo que não lá vou.

- Mãe, eu não acho boa ideia. O restaurante chinês é um pouco caro. E a minha conta bancária está a gritar por alimento! Se ainda gastar mais tenho a certeza que um dia destes o banco vai me ligar para me aconselhar a desativar esta conta!

- Não te preocupes com isso que eu pago!!

Oh meus estimados leitores, é que ela nem precisou de dizer isso duas vezes.

Vesti a minha camisa cor de rosa (sim, um homem também veste rosa), uma calça de linho preta, calcei uns ténis básicos, coloquei aquele meu perfume que ela diz ser muito enjoativo, peguei na chave do carro e lá fomos até à cidade onde fica o tal restaurante.

Quando chegamos à cidade, e após voltas e mais voltas (onde a minha mãe ordenava para onde me devia dirigir qual polícia sinaleiro), não havia nenhum estacionamento livre perto do restaurante e, então, tive que me distanciar um pouco para arranjar um sítio onde deixar o meu carro sem arriscar apanhar uma multa que os nossos amigos não perdoam.

Chovia muito e os meus vidros estavam embaciados.

- Liga essa coisa para desembaciar os vidros! - ordenou a minha mãe. Bem tentei, mas a "coisa" aparentemente está avariada porque carreguei no botão umas 20 vezes e aquilo não ligou.

Se havia de chover era naquele momento em que nos preparávamos para sair do carro. Ainda esperamos que a chuva amainasse mas ela teimava em não passar.

- Mãe, eu acho que é melhor mudarmos de ideias e vamos antes almoçar no centro comercial.

- Não senhora! Eu quero ir ao chinês. Vamos embora! Eu não tenho medo da chuva!

Penso que nunca corri tanto na minha vida. Se estivesse a participar numa Meia Maratona naquele momento, da maneira como corria qual Rosa Mota pelas ruas do Porto, asseguro-vos que a ganharia. Cheguei ao restaurante com a camisa encharcada.

A comida estava ótima. "Valeu a pena apanhar a chuva", disse a mãe a esfregar a barriga enquanto nos dirigíamos para o carro (a chuva tinha acabado).

Chegamos a casa e, no momento em que ia sair do carro, a chuva recomeçou. Caramba, parece praga!