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Milorde

Falta de cheiro

Milorde, 17.01.22

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O teste antigénio feito na farmácia deu negativo, contudo passei o fim de semana com falta de cheiro e perda de paladar. A Maria está ótima e quando lhe digo que não sinto o sabor da comida ela responde-me que assim já não critico os seus cozinhados.

Vi na internet que para voltar a sentir o cheiro tenho que treinar o olfato. Então ando a cheirar todo o gel de banho, champô, detergentes e sabões que encontro para ver até que ponto estou congestionado. Os cheiros mais fortes consigo senti-los, ou seja, não é uma perda de olfato total o que me leva a duvidar se realmente estou infetado com a covid-19 ou não.

Ontem quando cheirei um gel de banho novo que a Maria tinha comprado e ela me disse que cheirava a maçã disse-lhe:

- Maria, não me pode dizer o cheiro, eu tenho que adivinha-lo, faz parte do treinamento que tenho que fazer.

A senhora não se fez rogada e então descalçou um sapato e estendendo-mo disse:

- Então diga-me, Milorde! Ao que lhe cheira?

Dei uma gargalhada tão grande que o Misha assustou-se e fugiu para debaixo do sofá.

A gelatina faz bem aos ossos

Milorde, 05.01.22

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Depois que a Maria viu na televisão o Dr. Almeida Nunes dizer que a gelatina faz bem aos ossos, agora todos os dias temos gelatina cá em casa como sobremesa. Existem vários sabores e desta vez compramos com 0% de açúcar. Eu até aprecio mas o problema é que tenho sensibilidade dentária e comer gelatina assim bem fresca causa-me um desconforto muito grande.

Quando lhe disse, a senhora respondeu-me:

- Então não coma! Mais sobra para mim.

 

O bloqueio criativo ainda continua, até estou a escrever sobre gelatina imaginem!

Irritação

Milorde, 04.01.22

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Ando numa fase da minha vida em que tudo me irrita. Já tentei escrever diversos textos que vão parar todos para o lixo porque não acho que são bons para serem publicados. Isso tem um nome que afeta muitos escritores, bloqueio criativo. E isso também me irrita.

Não sei se ainda estou em fase de ressaca das festas, provavelmente estou. A mudança de rotina também me irrita. Irrita-me o barulho dos vizinhos, irrita-me as notificações do telemóvel, irrita-me que a Nairobi na série Casa de Papel da Netflix tenha morrido, irrita-me o excel com todas as suas fórmulas que me dão um nó no cérebro... enfim!

Estou capaz de ir ao Facebook da Cristina Ferreira e começar a insulta-la e ao programa que ela apresentou só para ter o prazer de discutir com alguém, só para perceberem o estado em que me encontro. Alguém conhece umas técnicas de relaxamento? É urgente!

 

Notícia de última hora

Milorde, 04.12.21

A papelaria de Barbalimpa está fechada e assim vai continuar durante uns dias porque a dona está infetada com a covid-19. Ironia do destino ou não, pois ela sempre disse que isto do vírus era tudo uma farsa, que jamais iria ser vacinada com uma vacina que foi feita em tempo recorde, que a vacina não passa de uma água que nos injetam para futuramente poder controlar a nossa mente, entre outras coisas que leu na internet e que está comprovado por cientistas, dizia ela.

Agora quem quiser comprar uma resma de papel, uma caneta, ou até mesmo um saco de gomas, terá de se dirigir à cidade mais próxima.

 

Novas medidas

Milorde, 01.12.21

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Meus queridos,

Tenho adorado receber tantas visitas na minha humilde mansão para beber chá e conversar. Tenho conhecido dias felizes que me enchem o coração de alegria. Contudo, a partir de hoje, dia 1 de dezembro, todas as minhas visitas deverão apresentar o certificado de vacinação completa ou um teste negativo. Mas atenção, que apenas são válidos os testes PCR ou de antigénio, caso contrário serão submetidos ao teste aqui mesmo pelas mãos da Maria e acreditem que não será de todo agradável, a mulher é bruta!

 

Era o vinho, meu deus, era o vinho!

Milorde, 15.11.21

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Lembram-se da excursão que o Paulo das camionetas realizou? Pois eu ontem soube de algo que vou partilhar com vocês. Não é que eu queira saber da vida das outras pessoas, isso não me interessa para nada (que ideia!), mas os habitantes desta vila pacata insistem em vir cá a casa me contar as coisas e eu, mais por boa educação que outra coisa, escuto sempre com atenção!

Bem, voltando ao dia da excursão, chegou-me aos ouvidos que a Sra Almerinda encheu bem a pança de carne de leitão assado ali para os lados de Mealhada juntamente com uma caneca de vinho e que, já que a senhora tinha pago a caneca inteira, não iria deixar o resto para o restaurante. Que não me faça mal - dizia ela enquanto sorveu o vinho até à última gota.

Já na camioneta a senhora começou a sentir-se mal. Dizia que via tudo à roda tal como se ela se tivesse sentado num carrinho da montanha-russa.

- Parai a camioneta, parai! - diziam as pessoas.

- Mas eu não posso parar aqui no meio da auto-estrada - dizia o motorista - só na próxima área de serviço.

Mas já não foi a tempo. A senhora vomitou no chão do autocarro. Até as lembranças de Fátima ficaram manchadas de bordeaux. O motorista abriu as portas de trás em andamento para as pessoas apanharem ar pois o cheiro era nauseabundo. Quem olhasse para o chão do autocarro via todo o vinho desperdiçado de um lado para o outro ao sabor das curvas.

A Sra Almerinda ficou doente durante 3 dias e disse mesmo que nunca mais em toda a sua vida tocaria numa gota de álcool.

 

Mais uma rixa!

Milorde, 12.11.21

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Como já diz o ditado antigo: em dia de São Martinho come-se castanhas e bebe-se um bom vinho. E nisso os habitantes de Barbalimpa são fortes! O Jorge organizou uma pequena festa no seu café para comemorar o dia, ofereceu um pacotinho de castanhas assadas bem salgadas aos convidados (para puxar a pinga), e convidou até um grupo de cantares ao desafio.

Ao som das concertinas e de vozes bem altas e desafinadas (que cantavam uma série de parvoíces de cariz sexual), o pessoal dançava, cantava, gritava, davam murros na mesa e batiam o pé ao som da música.

Sou Gonçalo de Amarante

Está escrito na tabuleta

Quem tem mulher vai lá

Quem não tem bate à punheta.

Vocês já devem ter percebido. O Russo, que já tinha bebido pelo menos 4 taças de vinho tinto, lançou um piropo qualquer a uma mulher. O problema é que a mulher em questão estava acompanhada do marido que, obviamente, não gostou do comentário e partiu logo para a violência, desferiu-lhe um soco na boca. As pessoas que estavam perto logo foram acudir dizendo ao homem para ter calma, que aquilo era tudo uma brincadeira, mas o que é certo é que o Russo foi para casa com a boca a sangrar.

Depois do sucedido a festa esmoreceu. O grupo de cantares ao desafio deu por terminada a sua atuação e começaram a arrumar as ferramentas. Os restantes diziam que se fosse com eles a cena não se teria passado assim, comentários esses que só começaram quando o agressor se foi embora, claro está.

Bem faço eu que não frequento esse tipo de festas senão, com um pouco de azar, ainda sobrava para mim.

 

Número estrangeiro

Milorde, 08.11.21

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Esta manhã a Maria recebeu uma chamada de um número estrangeiro. Como é um smartphone que a criatura tem, os tais telefones inteligentes, apareceu no ecrã que a chamada provinha de Frankfurt.

- De onde, Milorde?? - perguntou ela.

- De Frankfurt! - respondi.

- De frango frito?!

Depois de espetar uma gargalhada claro que lhe expliquei que Frankfurt é uma grande cidade que se situa na Alemanha.

- ah tá bem... e porque é que me ligaram?

- Certamente que foi engano, não se preocupe.

- Espero bem que sim senão mando-os a todos darem uma curva!

- Mas você não fala alemão, criatura.

- Não faz mal, eles percebem na mesma!

Sem comentários.

O assédio

Milorde, 03.11.21

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Depois da ilustre visita de ontem que vocês tão bem conhecem tive uma segunda. Estava a preparar-me para iniciar a leitura de um novo livro quando ouvi um motor de um carro a reclamar para a dona colocar-lhe uma outra mudança. Só podia ser a Odete! Se aquela mulher alguma vez colocou a 4ª mudança no seu Opel Corsa A vermelho de 1986 foi provavelmente uma vez sem exemplo. Fui à janela e vi que de facto era ela que tentava estacionar o seu carro numa descida ao lado da minha casa porque o mesmo já só pega de empurrão. Era só fumo no ar e um cheiro a gasolina queimada que vocês nem queiram saber!

A Maria foi abrir a porta e com ar resignado disse que ia voltar a fazer chá.

- Odete, que bom recebê-la na minha humilde mansão! - Fui um pouco hipócrita porque na verdade eu não queria receber mais visitas, muito menos a dela.

A Odete deu-me dois beijinhos muito demorados e sentou-se na poltrona mesmo à minha frente e com grande desplante cruzou as pernas na sua saia travada.

- Milorde, o prazer é todo meu!

Após alguma conversa de circunstância, já o chá estava servido e arrefecido o suficiente para dar um bom gole, a mulher começou por dizer que se sentia um pouco sozinha, que depois da morte da marido nunca mais voltou a ser a mesma, tinhas saudades da mulher que em tempos era cheia de vida e vitalidade. Eu já começava a ficar um pouco cansado daquela conversa e, ao levantar-me, disse-lhe que tinha coisas para fazer e se ela não se importasse eu teria de a acompanhar até à porta, isto tudo com educação.

- Antes disso eu queria dizer-lhe uma coisa, se me permite Milorde.

- Diga, diga.

- Tenho pensado muito em si, principalmente à noite quando me dá aqueles calores que só as mulheres sabem o que é...

- Como?! - o que é que ela estava para ali a dizer? A mulher endoideceu de vez, só pode.

Ela abriu um pouco a blusa, consegui ver que usava um soutien preto de renda, e com ar de lontra aproximou-se mais de mim e com uma voz carregada:

- Esse bigode causa-me umas cócegas nas pernas que não me aguento!!

- Controle-se minha senhora, por favor! Acho que é melhor eu acompanha-la à porta, venha comigo.

Ela não desistiu. Encostou-me contra a parede e com um olhar suplicante ordenou-me:

- Não fuja de mim, Milorde. Por favor, coma-me!!

Comecei a chamar pela Maria para me vir ajudar. Aquela mulher estava possuída! Tentou a todo o custo beijar-me na boca e eu só pedia socorro.

Quando todos cá em casa vieram ver o que se passava, a mulher ficou tão envergonhada que lá me largou a saiu a correr porta fora, apertando os botões da blusa pelo caminho em direção ao carro.

Eu fiquei sem reação durante alguns minutos e depois, quando todos me olhavam de boca aberta estupefactos, eu encolhi os ombros e disse:

- As pessoas estão sempre a surpreender-nos.

 

A excursão

Milorde, 27.10.21

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No próximo domingo haverá uma excursão para os habitantes de Barbalimpa que quiserem participar. O Paulo das camionetas até anunciou na missa da 11h de domingo passado que o custo da excursão são 20€ sem direito a reembolso caso alguém não tenha gostado ou quiser simplesmente desistir.

O itinerário será parar em Fátima (como não podia deixar de ser), depois visitar a Quinta dos Milagres em Coimbra, e no fim passar em Mealhada para comer leitão acompanhado com uma boa garrafa de vinho, branco ou tinto dependendo do gosto de cada um.

A Rosa, que faz rissóis e croquetes para fora, está a trabalhar pela noite dentro para fabricar tanto salgado para tanta gente e o Sr. Eduardo, proprietário do minimercado, esgotou o stock de batatas fritas de pacote.

Anda por cá uma azáfama que vocês nem queiram saber! Até o Sr. Eduardo esqueceu-se de tirar a chave da fechadura e fechou a porta do minimercado com a chave do lado de dentro. O problema é que a porta só abre com a chave e não com a maçaneta. Por acaso, e sorte a dele, deixou uma janela entreaberta e então o senhor veio a correr cá a casa pedir ao Sebastião que entrasse pela janela do minimercado e lhe abrisse a porta. Fomos lá todos para ajudar, o Misha ficou a guardar a mansão qual cão de guarda, e quando chegamos o Sebastião trepou pelo cano de infiltração até à janela e disse ao Sr. Eduardo que a prateleira dos líquidos da loiça estava mesmo abaixo e que ao entrar talvez derrubasse alguns.

- Mete abaixo, mete abaixo! - gritou o Sr. Eduardo.

O Sebastião lá entrou e por fim abriu a porta. Era só líquido da loiça pelo chão! Mais tarde viemos a saber que o Sr. Eduardo disse que por causa do Sebastião teve um grande prejuízo na marca Super Pop limão. Estão a ver como as pessoas são mal agradecidas?