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Milorde

O blogue da Maria

Milorde, 13.11.21

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Apanhei a Maria a mexer no meu computador e qual não foi o meu espanto quando a vi a escrever no meu blogue. Que grande lata! A senhora desfez-se em mil desculpas e como eu sou um coração mole lá a desculpei com a condição de ela não voltar a fazer o mesmo.

- Mas Milorde, sua senhoria, eu estou a adorar poder escrever e contar um pouco da minha história às pessoas!

Como eu a compreendo. Realmente poder sentar-me aqui em frente do computador, contar as minhas histórias, e saber que do lado de lá existem sempre leitores que gostam de ler os nossos textos e querem mais, dá-nos um alento que nos enche de orgulho de nos mesmos.

Então para não haver aqui mais misturas decidimos criar um blogue só para ela, com os textos dela, as histórias dela.

Maria dos Prazeres, a história de uma mulher igual a tantas outras. Porque acredito que muitas mulheres por esse mundo fora irão identificar-se com os seus relatos e emocionarem-se com as suas palavras.

 

Mentiras e crenças

Milorde, 14.12.19

Estávamos todos à mesa do pequeno almoço quando ouvimos três fortes pancadas na porta. "Mas quem será a esta hora da manhã?" pensei. A Maria saiu da cozinha alvoraçada e, após ter limpo as mãos ao avental, abriu a porta. A D. Aurora entrou de rompante pela minha sala adentro, vestida com uma das suas saias travadas até ao joelho e uma blusa lisa, e procurou-me com o seu olhar. Levantei-me de um salto e dirigi-me a ela, prometendo-lhe que passaria na sua loja mais tarde para acertarmos contas, antes que ela fizesse um escândalo à frente de todos.

- Esqueça as dívidas, Milord! De nada nos serve o dinheiro - disse-me enquanto me agarrava as mãos num estado de desespero. Os seus olhos estavam apavorados.

Pedi-lhe para se sentar e disse à Maria que lhe trouxesse um copo de água, mas da torneira e sem açúcar, porque Milord tem que economizar. Perguntei à D. Aurora o que se estava a passar.

- Eu li na Internet que o mundo vai acabar na noite da passagem para o novo ano! E desta vez vai ser em fogo!

Ouvi qualquer coisa a partir-se e, quando me virei, vi que as três mulheres estavam horrorizadas com o que acabaram de ouvir, até o Sebastião fitou-nos de boca aberta. Misha continuava a lamber a sua taça em busca de restos de comida e dei graças a Deus por pelo menos aquele pobre animal não perceber nada do que aquela mulher tresloucada estava para ali a dizer.

- Vamos lá ter calma minha gente - disse pacientemente, e virando-me para a D. Aurora: - isso é uma estupidez, mulher! Não devemos acreditar em tudo o que se diz na Internet.

- Isso é verdade - interveio o Sebastião - uma vez li na Internet que fazia mal comer comida para gato e olhe eu ainda estou aqui vivinho da silva.

Todos o olhamos estupefactos. Vi que ele se arrependeu do que tinha acabado de dizer mas, em vez de sentir envergonhado, encolheu os ombros e continuou a comer o seu pão. Bem me pareceu que andava a desaparecer muitas latas de comida do Misha... Decidi ignorar o assunto, por enquanto.

- É como lhe digo D. Aurora, o mundo só acaba para quem morre.

- Não, não, não - a mulher abanava constantemente a cabeça - tenho a certeza que o que li é verdade. O artigo citava passagens da bíblia que eu mesma fui confirmar. Uma desgraça que se vai abater sobre nós!

Apesar de não perceber muito bem o português, Pauline foi a correr sentar-se no colo da avó em busca de conforto. Ela falou-lhe algumas palavras em francês para que não se afligisse, seria provavelmente uma brincadeira de mau gosto. Eu não lhe chamaria brincadeira, mas sim ignorância pura.

Tentei a todo o custo tirar aquelas ideias malucas da cabeça da D. Aurora, mas a mulher estava irredutível. Perguntou-me se tinha alguma bíblia em casa para me mostrar as passagens para comprovar que o que ela estava a dizer tinha algum fundamento. Disse-lhe que lamentava mas não tinha nenhuma.

- Nós vamos realizar uma novena na igreja para que o Senhor tenha piedade de nós, e eu vim cá para vos convidar e dizer que é importante a vossa presença lá. Precisamos de estar todos unidos nesta hora para que Deus tenha compaixão de nós.

Disse-lhe que era uma parvoíce e que me recusava a participar em semelhante coisa. Porém, a Maria respondeu que sim, iríamos todos à novena, que mal não faria. Sorte a minha!

A D. Aurora ficou mais satisfeita com a resposta e, com mais algumas palavras religiosas, despediu-se de nós e ao sair fez o sinal da cruz. Permaneceu um silêncio total nesta mansão durante o dia de hoje.

É impressão minha ou esta gente anda toda maluca?!

 

Os cogumelos

Milorde, 07.11.19

Esta manhã a Condessa estava mais bem disposta. Disse que dormiu bem, apesar da tosse que todas as noites a importuna, e que hoje queria ir dar um passeio pela aldeia. Bem que precisa, pensei cá para comigo. Não sei se já referi mas a Condessa Bernadette é uma senhora de bom porte, pesa cerca de 90 quilos, e um pouco de exercício físico não só fará bem para a sua saúde como para o seu corpo. Disse-lhe que a acompanhava.

- Pauline, minha querida, queres vir connosco? - perguntou-lhe a Madame.

- Ah... não! Prefiro ficar com a Marie.

Maria tem-lhe ensinado a fazer ponto cruz, algo que pensava estar fora de moda, mas a miúda tem sido bastante aplicada e tem feito trabalhos muito bonitos.

Saímos para o ar fresco da manhã. O sol espreitava timidamente por entre as nuvens após alguns dia chuva, e o chão estava coberto de folhas coloridas que caíam das árvores a todo o instante. Estava bastante agradável a nossa caminhada, porém, depois de alguns minutos, a Condessa disse:

- Ai não aguento, vou sentar-me ali naquelas pedras para repousar um pouco! Já estou cansada.

- Mas... Madame nós só caminhamos apenas uns 100 metros!

- E então? Você pensa que tenho a sua idade, Milord?

Sentou-se e retirou da sua mala um leque florido para o abanar um pouco contra o seu rosto. Sentei-me junto a ela e fiquei a observar as árvores que ficavam cada vez mais nuas. Entretanto, a Condessa guardou o leque na sua mala para depois tirar os seus óculos de leitura e um livro de bolso. Realmente as bolsas das mulheres estão sempre cheias de coisas. Reparei que na capa do livro estava uma mulher vestida com saia curta e uns collants pretos. O título era: Je suis une secrétaire soumise a ses patrons. [Eu sou uma secretária submissa aos meus patrões]. Um romance erótico!

Nem queria acreditar. Fiquei chocado! Nem a minha boca abri e continuei a observar as árvores. Contudo, de repente, ela levanta os olhos do livro e fica a olhar especada para o outro lado da rua.

- Não posso acreditar. C'est des champignons!

Apontou para uns cogumelos que cresciam junto a umas árvores no mato em frente. Disse-lhe que jamais comeria daqueles cogumelos que provavelmente eram venenosos. Ela bateu-me com o livro no braço.

- Não diga disparates, seu estúpido! Aqueles cogumelos são ótimos. Vamos apanha-los para o almoço.

Guardou as suas coisas na mala e levantou-se. Atravessou a rua em passos acelerados, já cheia de uma renovada energia vinda não sei de onde, e subiu o pequeno muro para o mato.

- Tenha atenção, Madame! - dizia eu com receio.

Agachou-se e apanhou-os a todos, ficando com as mão todas sujas de terra, uma imagem que nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que uma Condessa mandava os outros fazer o trabalho por si.

- Oh, ali ao fundo tem mais.

- Deixe-se estar que aqueles eu apanho-os, Madame!

Mas ela nem ligou, continuou a caminhar na direção dos outros cogumelos e eu seguia-a com todo o cuidado pois o chão estava húmido da chuva. Quando estava a chegar junto dos outros cogumelos, a Condessa desequilibrou-se e com um grito caiu desamparada com a cara no chão!

- Oh Deus! Madame está bem?! - perguntei alarmado enquanto a ajudava a levantar-se. Estava com a cara toda suja de lama.

- Deixe, Milord. Eu perdi a vontade de comer cogumelos!

Entramos em casa e mandei logo a Maria preparar um banho quente para a Madame.

O jantar

Milorde, 02.11.19

Quando finalmente entramos na mansão, o céu já escurecia. Mostrei à Condessa os seus aposentos para que pudesse descansar um pouco da viagem antes do jantar. Mandei a Maria preparar mais um quarto de hóspedes para a Pauline, a nossa convidada surpresa, que pelo que consegui apurar, é uma neta da Madame da qual não tinha conhecimento.

A mesa já estava posta com a melhor loiça, talheres e copos que consegui reunir. Tudo reluzia à luz das velas que lhe conferiam um aspeto de nobreza. Vinha um cheiro fenomenal da cozinha! Contratei um cozinheiro especializado na cozinha francesa para preparar o nosso primeiro jantar, a Maria não conseguiria dar conta de tudo sozinha, coitada já estava a fazer um esforço enorme! Tudo estava a correr bem, não havia nada que me preocupasse... até ao momento em que se ouviu um grito.

Corri desenfreadamente até ao quarto da Condessa e encontrei-a em cima de uma cadeira ainda a gritar e escondendo o rosto com as mãos. Toda a gente veio também a correr ver o que se passava.

- O que se passa, Madame? Porque gritais dessa forma?

Ela tirou uma mão da cara e apontou para um canto da parede.

- Está ali uma... uma... aranha!!

Outro grito fez-se ouvir, mas desta vez era Pauline que gritava e foi logo a correr colocar-se em cima da cama, imitando a avó.

- Tenham calma, senhoras. Eu já vou buscar uma vassoura - prontificou-se a Maria. Momentos depois estava ela a bater com a vassoura no chão para matar a tal aranha, e de cada vez que ela batia, as duas gritavam como se estivessem possuídas.

Pedi imensas desculpas às duas, assegurando-lhes que tudo estava bem limpo e desinfetado, desconhecendo totalmente de onde aquela maldita aranha surgiu. Os ânimos acalmaram um pouco depois e dirigimos-nos todos para a sala de jantar.

A Condessa Bernadette pediu como aperitivo, e também para se acalmar, um cálice de vinho do porto. Bebeu-o de um só trago o que me deixou estupefacto. Aquela senhora está bem mais habituada à bebida que eu.

- Deseja tomar outro Madame? - perguntei-lhe mais por formalidade, pensando mesmo que ela iria recusar.

- Oui, s'il vous plait - respondeu-me prontamente estendendo-me o cálice.

O jantar foi servido as 20 horas em ponto. Travessas fumegantes cheias de peru assado foram colocadas em cima da mesa, acompanhas por batatas alouradas com tomilho e terrinas de salada. Tudo estava delicioso! A conversa estava animada, a Condessa ria despudoradamente das minhas piadas secas, Pauline fazia festas ao Misha que encontrou um novo colo, enquanto o Sebastião debatia-se em comer uma coxa de peru com os talheres. Acabou por desisitir e pegou na coxa com a mão, o que lhe valeu um olhar não muito simpático da mãe.

Chegou a hora da sobremesa. A Condessa dizia estar já empanturrada e pediu apenas uma salada de fruta. Pauline pediu uma mousse au chocolat e o Sabastião imitou-a. Eu não quis comer sobremesa. Porém, sem que nada o fizesse prever, a Condessa engasgou-se com um pedaço de fruta. Começou a tossir ligeiramente, depois mais violentamente até que me vi aflito pois ela não conseguia respirar e já estava vermelha de tanto esforço.

- Batem-lhe nas costas - gritou a Maria. Mas não fui a tempo. Quando dei por ela, já ela estava atrás da Madame e deu-lhe um sopapo tão grande que a pobre mulher cuspiu a prótese dentária para o copo do vinho.

O Sebastião desatou a rir às gargalhadas. A Maria desculpou-se e eu nem sabia o que dizer. A Condessa retirou a prótese do copo, voltou a coloca-la na boca, disse estar indisposta e foi para o quarto descansar.

E assim acabou o nosso jantar.

A chegada da Condessa!

Milorde, 31.10.19

- Maria está tudo em ordem? - perguntei pela milésima vez.

- Já lhe disse que sim, homem! Já estou a ficar tonta de tanto o ver a caminhar para trás e para a frente, vai romper a carpete se continua. Sossegue a piriquita!

- Não fale assim Maria! Tenha modos, pelo amor de Deus.

Estava vestido com o meu melhor fato e com a minha melhor gravata que estava de tal modo apertada que mal conseguia respirar. O tempo está fresco mas nem por isso deixo de suar em bica. Estou num estado de ansiedade extrema. A Condessa está a chegar!

Olhando pela janela vejo um mar de gente que, apesar da chuva, não deixaram de estar presentes para testemunhar o grande acontecimento do dia e quiçá do ano. Vejo também jornalistas que aguardam pacientemente, de camera e microfone em punho, para dar a notícia a Portugal inteiro. Nunca na minha vida vi tanta gente prostrada à minha porta.

- Sebastião, quando a Condessa chegar tens de a cumprimentar devidamente com uma vénia não muito exagerada tal como eu te ensinei e dizer "como está, madame" - disse ao rapaz que também estava vestido a rigor e com cara de poucos amigos por ser obrigado a participar daquela cena.

- Eu sei, Milord - respondeu - posso comer alguma coisa, por favor? Estou cheio de fome, ela nunca mais chega.

- Nem penses! Vais esperar como os outros - repreendeu-o a Maria.

Também ela estava vestida a rigor. Não com um vestido, tal como ela queria, mas sim com uma farda (preta e branca) de empregada doméstica que encontrei perdida no sótão. Ao início ela recusou-se a vestir aquilo alegando que cheirava a mofo e a mijo de rato. Fez-me gastar um dinheirão levando-a para a lavandaria (algo que ela poderia perfeitamente fazer em casa), como se me castigasse por a obrigar a usar uma farda, mas eu não posso arriscar fazer figura de ridículo perante a Condessa. A Maria é, de facto, a minha empregada e, então, terá que se vestir como tal.

De repente, ouvimos um burburinho vindo de fora acompanhado com alguns "ah" de exclamação e corremos todos para a porta. O que vi lá fora deixou-me completamente de queixo caído. A Condessa de Champignon chegou... numa limusina! Preta, brilhante.

Atravessamos o pequeno jardim até ao portão que já estava aberto de par em par. Estava instalado o silêncio total. Toda a gente esperava, expectante, para ver a Condessa sair daquela viatura. O mordomo deveria andar pela casa dos 40 anos, de tez morena e com um fino bigode. Estava vestido com um smoking de bom corte, luvas brancas nas mãos finas e um chapéu de chofer. Saiu do lugar do condutor sem dizer palavra e dirigiu-se para o outro lado do carro para abrir a porta de trás.

Mal a Condessa Bernadette saiu da limusina vários flashes obstruíram a minha visão. Ela elevou a sua mão rugosa para proteger os olhos, ligeiramente desconfortável, e reparei que me procurava. Ordenei a todos que parassem com as fotografias com uma voz firme para mostrar a minha posição. A Condessa usava um vestido simples rosa claro.

- Madame, fico muito contente por ver que chegou bem. Como está? - disse fazendo uma vénia.

- Oh, je suis très fatiguée, mais je suis heureuse de bien arriver chez vous, Milord.

Toda as pessoas olharam para ela interrogativos. A Maria deu-me uma cotovelada no braço e acrescentou: - o que é que ela disse??

A Condessa levou a mão à boca para abafar um riso.

- Eu esquecer que estou em Portugal. Desculpe. Estou bem, obrigada.

Toda a gente se riu e aplaudiu enquanto mais flashes disparavam.

- Madame, esta é a Maria, a minha empregada doméstica, e este é o Sebastião, seu filho.

Maria ia aproximar-se dela para a cumprimentar à maneira portuguesa, com dois beijinhos, mas eu consegui trava-la a tempo. Ninguém deve ousar cumprimentar uma Condessa dessa forma. Seria deselegante.

- Enchantée - disse ela dirigindo-lhes um sorriso e um aceno de cabeça.

- De nada minha senhora, de nada! - respondeu a Maria sem perceber ao certo o que a outra tinha dito.

Para a salvar do seu constrangimento, passei para o seguinte assunto, falando-lhe em francês:

- Madame, o Presidente da Junta não pôde estar presente para a receber por motivos pessoais. Mas disse-me para lhe transmitir os seus cumprimentos e que está a preparar uma festa de boas vindas em sua honra. Claro que a festa não poderia ser hoje, a madame está cansada da longa viagem, mas será num dia próximo. Então, convido-a a entrar na minha humilde mansão.

- Oh, merci monsieur! Mas espere, eu trouxe alguém comigo. Pauline, viens ici s'il vous plait.

Saiu do carro uma miúda loira e de uns olhos azuis estupendos. Ela não deveria ter mais do que 13 ou 14 anos. Nem poderia acreditar que a Condessa trouxe outra pessoa com ela sem me consultar primeiro. Mais uma!

A menina Pauline disse Bonjour timidamente e de modos educados. Sebastião não tirava os olhos dela. Mais flashes dispararam.

- Bem... entrem! - Foi tudo o que consegui dizer.

Fechei os portões e preparei-me para a maior aventura da minha vida.

 

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A Carolina

Milorde, 29.10.19

Meu querido povo da blogosfera.

Não tenho escrito muito pois como sabeis ando bastante atarefado em preparativos. Já me empanturrei de rissóis, croquetes, coxinhas, pataniscas, panados, moelas, camarões, etc. E ainda só vou nos aperitivos! Tenho que provar tudo o que a Maria faz para dar o meu aval. A minha despensa nunca esteve tão cheia de comida, toda a gente daqui da aldeia quer contribuir com alguma coisa para a receção da Condessa, até os tomates biológicos da D. Aurora vieram cá parar. Pobre povo, não se passa nada nesta aldeia e qualquer acontecimento deixa-os num estado eufórico! Claro que não me importo com isso, nem um pouco, mas o meu estômago já começa a reclamar e ontem estive com uma diarreia que quase me limpou as tripas!

O Misha está a ficar tão gordo que mal se arrasta. A Maria quase que cozinha de manhã à noite para as coisas também não se estragarem, e quando as nossas barrigas estão mais inchadas que os balões do S. João, damos tudo ao pobre gato que nunca diz que não.

Entretanto já conheci a Carolina, a namorada do Sebastião. Trouxe-a cá a casa numa tarde chuvosa para nos apresentar. Uma menina baixa, cheiinha e muito tímida. Estava com o cabelo oleoso por causa da chuva e tinha uma franja que me fazia lembrar a cadela da Sr.ª Albertina de cada vez que ela lhe cortava o pelo. Quando lhe disse que aquele corte de cabelo não lhe favorecia, o Sebastião ficou tão furioso que quase me deu um pontapé nas virilhas se eu não fugisse a tempo. Ela riu-se e olhou o namorado com uma expressão de orgulho por ele a ter defendido. Ora essa, agora a formiga já tem catarro, querem ver?!

- Mãe, a Carolina pode ir ver o meu quarto? - perguntou.

Arregalei os olhos, surpreendido com a pergunta.

- Claro... que não! - disse a Maria. Suspirei de alívio. Conhecendo o Sebastião como já o conheço, eu sabia qual era a sua ideia de "mostrar o quarto". De certeza que ele ia querer mostrar-lhe aqueles vídeos que ele vê vezes sem conta.

- Oh mãe, que seca!

- Está calado! Vocês os dois ainda são muito novos para andar a brincar aos adultos - disse a Maria, e virando para a menina: - Carolina querida, não sei se a tua mãe já te explicou alguma coisa sobre a vida sexual mas, se ainda não, eu posso perfeitamente fazê-lo. Não é correto uma menina entrar assim num quarto de um menino, sabemos bem que a carne é fraca, mas tu tens de resistir porque é muito bonito quando uma mulher chega ao casamento virgem, vestida de branco, com um ramo de flores de laranjeira.

Eu não acredito que aquilo estava a acontecer ali na minha sala. A miúda ficou tão vermelha que ficou a olhar para o chão sem nada dizer.

- Eu casei virgem! - continuou ela - nunca antes vi o meu homem nu.

- Oh mãe, por favor, para com isso!

- Cala-te Sebastião Manuel. Não é verdade o que eu digo, Milord? Viu a sua mulher nua antes do casamento? É verdade... o senhor alguma vez foi casado, Milord? Engraçado, nunca tinha pensado nisso.

Engasguei-me com um pedaço de cebola de uma patanisca. Comecei a tossir até as lágrimas me brotarem dos olhos. A Maria foi a correr buscar-me um copo de água e, depois de o beber e me acalmar, dei a conversa por terminada e mandei-a para a cozinha preparar o jantar.

A Carolina ficou mais um pouco sentada no sofá a fazer festas ao Misha com o Sebastião ao lado. Diria que ele está mesmo apaixonado pela maneira como a olha. Quando começou a escurecer, ela disse que tinha que ir embora. Despediu-se de mim dizendo-me que foi um gosto conhecer-me e que tinha uma linda mansão. A rapariga é educada. Dirigiu-se para a cozinha para se despedir também da Maria.

Ai! A chegada da Condessa está para breve. Nem vos conto o meu estado de ansiedade.

 

O Presidente

Milorde, 26.10.19

Hoje recebi a visita do Presidente da Junta, Américo Tomás. Nunca antes o Sr. Presidente pôs os pés na minha humilde mansão mas hoje, sem que nada o previsse, fez soar a sineta que tenho junto ao portão. A Maria veio a correr, atrapalhando a minha leitura, e sussurrou-me que quem tinha tocado a sineta era nada mais nada menos que o nosso Presidente acompanhado da sua esposa. Ordenei-a que os fosse receber e os convidasse para entrar, oferecendo-lhes uma chávena de chá, enquanto eu iria trocar de roupa.

Sebastião estava a dormir e eu fechei a porta do seu quarto para que ninguém ouvisse os seus roncos. Quando desci, deparei-me com a Maria sentada no sofá em frente deles pedindo-lhes ajuda pois agora estava separada do marido e ele não a ajudava em nada. Mandei-a para a cozinha e cumprimentei os meus convidados com pompa e circunstância como o momento assim o exigia. O Sr. Presidente apertou-me a mão com força e deu-me uma palmadinha no braço como se fossemos velhos conhecidos. A sua esposa simplesmente acenou-me com a cabeça e fez um leve sorriso. Perguntei-lhes em que os poderia ajudar.

- Milord, desculpe-nos a ousadia de o visitar sem sermos devidamente convidados mas creio que temos um assunto a tratar que será positivo para ambas as partes.

A sua esposa continuava a acenar com a cabeça e eu tive que resistir ao impulso de lhe perguntar se ela sofria de parkinson.

- Sou todo ouvidos senhor Presidente.

Ele refletiu por momentos antes de voltar a falar, olhando para cima como se as suas palavras pairassem por ali no ar.

- Soubemos que Milord iria receber uma visita muito especial de uma Condessa - acrescentou.

- As notícias correm depressa, senhor. Até aposto quem foi que lhe disse - só poderia ser a Aurora do minimercado.

- Oh não leve a mal. Sabe que vivemos numa aldeia pequena e tudo se sabe...

- Compreendo.

- Bem, adiante. Quando soubemos dessa notícia, eu e a minha Lulu, decidimos que tal acontecimento não poderia passar em branco, se é que me entende. Vamos organizar uma festa de boas vindas para a Condessa! Tudo pago pela presidência claro está, Milord não terá de se preocupar com nada, é só comparecer com a Condessa e a sua... família?... as pessoas que habitam aqui consigo.

De repente, um largo sorriso se apoderou de mim.

- Mas isso é uma excelente ideia! Obrigado pela atenção senhor Presidente.

- Oh de nada! Será um prazer.

Depois de decidirmos alguns aspetos importantes, levantei-me para dar a conversa por terminada. Eles fizeram o mesmo. Voltou a dar-me o mesmo aperto de mão vigoroso e a sua esposa, Lulu, o mesmo aceno de cabeça e aquele sorriso artificial que me estava a dar cabo dos nervos. Saíram da minha mansão sem mais uma palavra mas, já quase a chegar ao portão, o senhor Presidente virou-se para trás e disse:

- Ah! E não se esqueça de mim nas próximas eleições!

Claro.

Os tomates

Milorde, 24.10.19

Temos estado num alvoroço cá por casa. Quase que me intoxico com o cheiro a lixívia que paira no ar, porque tudo deve estar devidamente desinfetado para receber devidamente a Senhora Condessa que está doente. Misha quase que não entra em casa e, quando o faz para comer alguma coisa, fica com os olhos a chorar e foge logo lá para fora, coitado do bicho!

Quando demos a boa nova ao Sebastião ele simplesmente perguntou: ela é boa? Respondi-lhe que sim, que a Condessa de Champignon é uma excelente pessoa, meiga, carinhosa, de trato fino mas muito gentil. Disse-me que não estava a perguntar sobre a sua personalidade mas sim pelos seus atributos físicos.

- Tenha respeito pela Condessa, menino Sebastião! Ela tem idade para ser sua avó!

- Oh que seca! - foi tudo o que me respondeu e foi logo enfiar-se no seu quarto. Esta juventude está perdida é o que vos digo.

Depois de muita insistência da Maria, que dizia que teríamos de encher a despensa cheia de comida boa, tive que vender duas peças de prata valiosíssimas que pertenciam ao meu tetravô por uma pechincha e logo depois encaminhamo-nos para o minimercado aqui da aldeia.

A senhora Aurora recebeu-nos jovialmente com um abraço e dois beijos repenicados. Dizia estar contente por receber a visita de Milord que há já algum tempo não aparecia por estas bandas. "É a crise", foi tudo o que consegui dizer. Depois de mais algumas palavras de circunstância, em que a Maria praticamente contou toda a sua vida depois da separação e a senhora Aurora fingia surpresa como se nada soubesse, ia colocando algumas compras no cesto de que precisava quando olhei para uma bancada cheia de tomates com um ótimo aspeto.

- São tomates biológicos, Milord - disse a dona do estabelecimento - comprei-os a um agricultor aqui da zona. Produto de qualidade!

- Qual é o preço? - perguntou a Maria enquanto pegava numa saca plástica depois de humedecer os dedos com a boca.

- 4,49€ o quilo.

O quê?! Perguntei-lhe se estava a brincar. A Maria disse que era um disparate! Não se justificava um preço assim tão alto por um quilo de tomates que nem sabíamos se eram bons.

- É o preço deles. Na minha loja só vendo produtos de qualidade! Se não querem pagar esse preço então vão lá aos supermercados comprar daqueles que vem da Holanda cheios de químicos!

- Pois não vamos levar nem uma coisa desta loja - sentenciei - que atrevimento!

- Vamos Milord - disse Maria e, depois, virando-se para a senhora Aurora - logo à noite quando estiver a apalpar os tomates do seu marido, veja se eles estão cheios, pois tenho-o visto a sair com a sua empregada da limpeza.

- Oh! Como se atreve?! Ponham-se a andar da minha loja imediatamente!! Fora!

Chegamos a casa sem compras. Acabamos por comer coelho à caçador refogado com um pouco de vinho tinto que ainda me resta na cave. A Maria disse-me que era uma boa caçadora!