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Milorde

Abandonada

Milorde, 19.10.23

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Há uma música da Fafá de Belém que se chama Abandonada. Ouvi essa música imensas vezes quando era criança, tantas que ainda hoje sei a letra de cor. Tínhamos um rádio pequeno com um leitor de CDs que não funcionava muito bem, por vezes era preciso dar-lhe uma pancada para que a música começasse a soar, mas quando a minha mãe o conseguia pôr a funcionar era aquela música que tocava, e quando acabava ela voltava para trás para a ouvir uma e outra vez.

É uma canção triste em que a cantora brasileira diz o quanto sofre por ter sido abandonada por alguém. A minha mãe revia-se totalmente na letra, diria mesmo que aquela canção tinha sido escrita para ela, que demonstrava o quanto estava a sofrer por o meu pai nos ter abandonado.

Eu olhava para a minha mãe e via a angústia, a tristeza, o desgosto. Enquanto a música tocava ela ficava com o olhar vazio, perdida nas suas memórias. Tantas vezes que acordei durante a noite com o barulho dos seus soluços abafados pelos cobertores. A minha mãe sofreu muito!

Por vezes as pessoas me perguntam: porque não sais de casa e vais viver a tua vida? Porque ainda vives com a tua mãe aos 37 anos?

A resposta é simples. Porque nunca a vou abandonar! Jamais iria suportar ver novamente o sofrimento dela por estar sozinha. Viva o tempo que a minha mãe viver, eu vou estar SEMPRE junto dela.

 

A primeira consulta na psicóloga

Milorde, 28.09.23

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A primeira consulta na psicóloga foi estranha. Por ironia do destino, talvez, certo dia estava a ver uns desenhos animados na televisão quando um dos bonecos foi a um psicólogo e a consulta passou-se com o profissional de saúde a mostrar uns desenhos estranhos e perguntar o que é que o boneco via neles.

Como a minha imaginação era, e ainda é, muito fértil, comecei a ensaiar várias respostas na minha cabeça para o caso de ela me mostrar os tais desenhos para eu interpretar. Porém, tal não aconteceu.

Na primeira consulta eu seria acompanhado pela minha mãe mas as seguintes eu já deveria estar sozinho com ela. Então, após ela se apresentar, disse-me que podia confiar inteiramente nela para lhe contar o que quer que fosse, que gostava que eu a visse como a minha melhor amiga. "Deve estar a brincar", foi logo o que eu pensei. Tinha acabado de a conhecer e ela já estava a propor ser a minha melhor amiga? Bem que podia esperar sentada. Reparem que eu sempre fui às consultas contrariado, porque era obrigado a ir.

O que eu mais odiava era quando ela me obrigava a falar do meu pai. Era um assunto muito sensível, porque o meu pai não esteve presente uma grande parte da minha vida, e ela insistia comigo em todas as consultas para lhe contar como a falta da presença do meu pai me fazia sentir. Era uma tortura! Tantas vezes reprimi o choro por vergonha porque quando eu chorava na escola toda a gente dizia que era um miúdo mimado e sensível tal como uma menina (professores incluídos!).

Nunca me esqueço de uma pergunta que me fez certo dia: "quando vês os desenhos animados que mais gostas, alguma imaginaste estar no meio deles?" Respondi-lhe logo que não. Era mentira, jamais poderia afirmar isso porque vivia aterrorizado com a possibilidade de ser internado num hospital psiquiátrico. Mas sim, sempre me imaginei no meio deles. Imaginava que tinha um Pokémon que me defenderia de todos aqueles que me queriam fazer mal. E imaginava-me num mundo totalmente paralelo.

Na maior parte das consultas mantinha-me calado a olhar para o tampo da mesa que até hoje me lembro da cor. Eu não queria falar com ela. Aquela psicóloga nunca conseguiu arrancar nada de mim! E quem me dera poder voltar atrás no tempo! Certamente que teria outro tipo de atitude. E talvez me tivesse tornado num adulto mais seguro de si mesmo.

Uma memória na luz do passado

Milorde, 18.09.23

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Na minha mente existe um baú precioso repleto de lembranças, uma coleção de experiências que moldaram o meu caminho. Cada lembrança é como uma estrela no vasto céu da minha vida, que brilha com uma intensidade única e que conta a sua própria história.
 
Uma dessas memórias reluzentes remete a uma tarde dourada de primavera, onde o sol se deitava gentilmente sobre as colinas e pintava o mundo com tons suaves e quentes. Naquele dia, eu estava com a minha avó, uma mulher sábia e gentil que tinha o dom de transformar momentos simples em preciosidades eternas.
 
Lembro-me da sua voz suave, contando histórias de tempos idos, enquanto preparávamos uma aletria. O aroma doce e reconfortante da canela e da casca de limão misturava-se no ar, criando uma sinfonia de sensações que perdura na minha mente até hoje.
 
À medida que ela mexia o tacho, partilhava comigo histórias da sua juventude, aventuras que pareciam pinturas vivas. A suas palavras eram como um fio mágico que me transportava para aqueles tempos passados, permitindo-me vislumbrar a vida como ela a conheceu. Era como se estivesse lá, sentindo as emoções, os desafios e as alegrias que ela experimentou.
 
Naquele momento, percebi a magia das memórias, como elas conectam gerações e ensinam-nos sobre a nossa história. Elas são como faróis no meio da escuridão, guiando-nos em direção a quem somos e o que podemos ser. Cada história compartilhada, cada lembrança preservada, é uma contribuição valiosa para o tapete tecido da nossa identidade.
 
Essa memória é mais do que apenas uma lembrança de um dia especial; é um elo vital com o passado e um lembrete constante do valor das histórias e das pessoas que as compartilham. A minha avó é uma luz suave que continua a iluminar o meu caminho, que me guia através dos desafios e celebra as minhas alegrias da vida.
 
Assim, guardo esta e outras memórias com carinho, sabendo que elas são tesouros que enriquecem a minha jornada e moldam a minha visão do mundo. Como guardião desse baú de lembranças, sigo em frente, ansioso para adicionar novos capítulos e histórias à coleção que compartilharei com as futuras gerações.
 

O Milorde chocado

Milorde, 28.12.22

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Certo dia estava a pensar em como teria sido o meu nascimento quando, ao fazer as contas, me apercebi que a minha mãe casou-se já grávida sem o saber. Confrontei-a logo com a minha descoberta. Se ela casou em Agosto de 1985 e eu nasci em Maio de 1986 é provável que quando a minha mãe atravessou a igreja vestida de branco, com véu e grinalda, jurando amor eterno ao meu pai na saúde e na doença até que a morte os separe, eu já estava a ser gerado no seu ventre. A minha mãe limitou-se a concordar comigo, realmente sim é provável, mas se tal aconteceu ela não sabia.

Este assunto veio à baila no dia de natal quando estava reunido com toda a minha família na casa da minha avó. Disse que tinha chegado a essa conclusão e a minha mãe não se fez de rogada e logo respondeu que se aquele banco de carpinteiro que o meu avô tinha na carpintaria falasse tinha muitas histórias para contar. A minha tia, que na altura também namorava com aquele que viria a ser seu futuro marido, confirmou dizendo que quando olhou para o fundo da carpintaria viu a minha mãe deitada no tal banco e que logo depois só se ouvia o banco a ranger. Toda a gente se riu. Eu, por outro lado, também descobri que fui concebido num banco de carpinteiro, às escuras, escondidos dos meus avós, com a minha tia a ouvir... espetáculo!

Já que estávamos numa de conversar sobre a intimidade, uma outra tia também disse que o seu filho foi feito num palheiro, em cima da palha seca. "Antigamente é que era, até dava mais gosto!".

Digam-me se eu posso ser uma pessoa normal no meio desta família.

O Milorde e o pai

Milorde, 27.12.22

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Quem conhece já um pouco da minha história sabe que os meus pais são divorciados há muitos anos e que, por conseguinte, o meu pai não foi uma figura presente na minha vida. Hoje sou um homem de 36 anos que mantém contacto com o pai, porém não existe aquela ligação que deveria existir entre pai e filho, é como se o meu pai fosse um desconhecido que por vezes vem jantar ou almoçar comigo.

Este natal, como em todos os anos, veio jantar connosco. Ficou na cabeceira da mesa e de vez em quando falava algumas coisas, dava a sua opinião, disse que a comida estava boa e que não podia abusar dos doces, ria-se de algumas graçolas que fomos contando, mas sobretudo falava com os meus cunhados sobre assuntos de trabalho, saúde e futebol. Nós os dois falamos apenas de banalidades, coisas sem interesse.

O meu pai sabe que sou homossexual, não por mim, mas pelos outros que se acham no direito de comentar a vida privada de cada um. Nunca tive uma conversa com o meu pai sobre esse assunto - nem penso que o deva fazer - e sinto que, de alguma forma, o desiludi. Quando a minha mãe lhe confirmou que sim "o nosso filho é gay assumido e tem um companheiro" a primeira reação do meu pai foi "não pode ser, o Milorde é um homem, tem que sair ao pai, macho!". Tive pena de não estar presente no dia em que ele proferiu tal coisa porque gostava de lhe perguntar se eu sou menos homem por ter uma orientação sexual diferente e talvez nesse dia houvesse um corte definitivo na nossa relação. Contudo, conforme os anos foram passando, ele mudou o seu discurso e hoje diz que "cada um sabe da sua vida" e "eu só quero que ele seja feliz". Nunca mo disse diretamente.

Por mais que ele o diga eu não acredito muito na veracidade das suas palavras. Sempre que o assunto gay surge num almoço de família ou num jantar de natal o meu pai vira a cara, mantém-se em silêncio ou até muda de assunto e isso deixa-me desconfortável. Gostava de levar o meu companheiro a esses almoços, às celebrações, mas não o faço porque "já sabes que o teu pai não gosta" e limito-me a aceitar porque não quero incomodar ninguém com alguma imposição da minha parte.

Quando estou com os amigos do meu pai eles perguntam "então e quando é que arranjas uma mulher para dar netos ao teu pai?!" e eu não sei o que responder e, quando o olho, ele está de cabeça baixa a olhar para as unhas. Ele tem vergonha e medo da minha resposta e eu lá digo "há-de chegar o dia".

O Milorde jamais irá colocar o seu pai numa situação desconfortável porque lá no fundo, por mais que diga que não existe uma ligação com ele, eu gosto dele.

O Milorde e uma história de vida

Milorde, 23.11.22

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Em conversa com a minha mãe sobre o amor de uma família, ou a falta dele, depois de um bom almoço que tão bem preparou, disse-me que em toda a sua vida nunca recebeu um beijo ou um gesto de carinho da sua mãe nem do seu pai.

O meu avô materno, que eu não conheci, era um homem muito severo e violento. A minha avó uma mulher trabalhadora. Todas as manhãs bem cedo a minha mãe tinha que ir para o campo cortar erva com uma foicinha para dar de comer ao gado, mesmo nos meses de inverno em que a erva era tão gelada como a neve. Na escola levava uma reguada por cada resposta errada nas mãos estendidas sobre a secretária da professora, à noite tinha que tentar afastar o seu pai quando este, com uma faca, uma arma, um martelo, as mãos, agredia a sua mãe dizendo que ela tinha amantes e que qualquer dia a matava.

A minha mãe casou cedo e depressa saiu daquele ambiente aterrorizador mas não para melhor. Levou a primeira coça do meu pai quando ainda estava grávida de 3 meses. Desmaiou e levou com um balde de água fria para acordar. Divorciaram-se após sete anos de um casamento conturbado e a partir daí a presença do meu pai na minha vida foi muito pouca. A minha mãe criou 3 filhos sozinha com muitas dificuldades e uma educação rígida.

Hoje sempre que vejo o meu pai ele dá-me dinheiro debaixo da mesa talvez para de alguma forma pagar a sua ausência durante tantos anos. Noto na minha mãe que é uma mulher revoltada pela vida injusta que levou mas que se derrete em doçura com os netos.

Eu também em toda a minha vida nunca recebi um beijo ou um gesto de carinho da minha mãe nem do meu pai.

O Milorde fala um pouco mais de si

Milorde, 14.11.22

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Quando era mais novo todos diziam que era um fidalgo por ser um menino franzino, frágil e cheio de manias.

Na verdade sempre fui um nobre apenas de nome e atitude. Cresci numa casa pobre, fria e decrépita em que não tínhamos água quente para tomar banho, bebíamos água do poço e vestíamos a roupa uns dos outros conforme servisse e só no Natal e na Páscoa é que tínhamos direito a roupa nova. Depois dessas festividades a roupa era guardada protegida por um plástico e só seria usada ao domingo para ir à missa ou numa visita à casa da minha avó. As minhas calças eram remendadas, as meias cosidas à mão.

Tínhamos uma panela grande onde era aquecida a água e a despejávamos numa bacia. Lavava primeiro o cabelo de joelhos no chão e agachado e só depois entrava dentro da bacia como podia para lavar o resto.

Muitas noites fui para a cama apenas com uma tigela de leite morno no estômago ou um parto de sopa de legumes porque a vida não era fácil e não havia carne nem peixe para comer todos os dias. No dia da matança dos frangos que a minha mãe criava nos currais havia sempre comida fresca ao jantar acompanhada de um arroz de feijão caseiro tão delicioso que jamais provei igual.

Nas noites de Inverno, em que o vento era tão forte que entrava pelas frestas das janelas mal isoladas, debaixo de sete cobertores para me aquecer, imaginava como seria a minha vida daqui a alguns anos. Adormecia embalado pela imaginação e com a certeza de que quando fosse grande haveria de conquistar muita coisa.

Hoje tenho tanta roupa que muita nem uso, basta rodar a torneira para a esquerda para a água sair quente, não me falta comida na mesa, tenho um edredão quentinho numa cama grande e tomo comprimidos para dormir.

Já conquistei muita coisa e ainda falta muitas outras que quero conquistar.

A doença mental

Milorde, 20.09.22

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Já tinha reparado que a minha irmã não se sentia bem. Uma jovem de 28 anos, mãe de dois filhos lindos, uma mulher bonita de pele clara e cabelo castanho liso, olhos doces, sensível, a pessoa mais bondosa que eu já conheci.

Ela sempre foi uma mulher magra, nunca passou dos 50 e poucos quilos, mas se a vissem agora assustavam-se! Depois que foi mãe pela segunda vez, há um ano atrás, que vive em permanente stress. Acredito que ser mãe de dois filhos não é fácil, requer responsabilidade a dobrar, paciência, poucas horas de sono e muito trabalho. O seu companheiro, um homem mais novo 3 anos que ela muito imaturo ainda, pouco ou nada faz para ajudar, passa horas a jogar no computador e a fumar um cigarro atrás do outro, nunca foi habituado a fazer uma tarefa doméstica, a mãe nunca lhe ensinou.

Há uns meses para cá que a minha irmã se tem sentido sozinha, entregue à sua sorte, desanimada, triste. Deixou de cuidar de si própria. Tem a pele baça, cansada, olheiras profundas, cheia de linhas de expressão. O cabelo está fraco, quebradiço, sem brilho. Sente-se exausta e chora, chora e chora.

Tanto eu como a minha mãe dizíamos sempre que ela tinha que ir ao médico. Ela dizia que não tinha tempo, não podia faltar ao trabalho porque o dinheiro é escasso, mal sai do trabalho tem que buscar os filhos à escola e à creche, chegar a casa e cozinhar, dar banho às crianças, deita-los, etc.

Porém chegou o dia em que ela não aguentou mais. Conseguiu uma consulta aberta e após ser analisada está diagnosticada com um esgotamento cerebral nervoso. A minha irmã neste momento pesa 39 quilos!

Está medicada com antidepressivo e um complexo vitamínico. Está de baixa, não vai trabalhar enquanto o médico não vir melhorias no seu estado. Temos ajudado da melhor maneira possível, vem para minha casa durante o dia, a minha mãe cozinha os pratos que ela mais gosta, eu faço sobremesas deliciosas e cada quilo que ela consiga engordar para nós será uma vitória.

A preocupação é muita, daí este meu desabafo, mas não lhes mostramos. Mantemos uma postura positiva, alegre. Porque ela vai sair desta, tenho a certeza.

Para quem ler este grande texto que hoje vos escrevo quero deixar-vos um alerta, tenham atenção aos sinais de vós mesmos ou de algum familiar e amigo, porque quem passa por uma doença mental não sabe o que fazer, a quem pedir ajuda, e penso que seja um dever de cada cidadão ajudar o próximo. Sejamos mais humanos!

O dia mais feliz com a LadyVih

Milorde, 21.12.21

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A minha convidada desta semana é a LadyVih, autora do blog A Duquesa e o Gato. A Lady chegou acompanhada pelo seu gato, vestida com um casaco de pelo fofo que lhe chegava até aos joelhos, saltitou por entre as pedras colocadas ao longo do meu jardim para não molhar as suas botas de camurça, e com uma gentileza que só ela tem deu-me um abraço apertado e agradeceu de imediato o convite que lhe fiz, pois diz que o 21 é um número muito especial para ela. E já vão perceber porquê.

O Misha quando viu o acompanhante da Lady ficou logo com um ar de desconfiado e, como dois cavaleiros que se preparam para um duelo, ficaram bastante tempo a olhar-se mas depois o Misha deu meia volta e desapareceu. Rimos os dois pelo sucedido e convidei a Lady a entrar e sentar-se no meu sofá. Pedi à Maria que nos servisse um chá de maçã e canela estava pronto para ouvir o dia mais feliz da Lady.

Ora bons dias ou boas tardes (depende das horas em que estarão a ler isto).

Foi com muito carinho que recebi este convite do Milorde para a sua rubrica. Com mais carinho ainda, pois o mesmo referiu que seria publicada no dia 21 e é um número que tem, para mim, um simbolismo carregado de muito Amor. Como é uma rubrica feliz e em tempo de Natal, é mesmo sobre isso também que eu venho falar.

Nada melhor do que esta época para falar sobre isso, pois o Natal é Família, Amor, Paz, Bondade...

O meu número, como lhe chamo, foi a minha primeira morada - na casa dos meus avós. E foi a morada que escolhi para todas as minhas férias (Verão, Natal, Carnaval...). Costumo dizer que fui nascida e criada no 21. Foi lá que dei os meus primeiros passos, que balbuciei as minhas primeiras palavras, que fiz os meus primeiros amigos, que me escondi com a minha melhor amiga para falar do meu primeiro amor, que aprendi o que era certo e errado... Também foi lá que tive os meus medos pela primeira vez (os incêndios, as cobras, etc), que tive as minhas primeiras quedas, as primeiras cicatrizes...

Fui crescendo, mas o 21 continuava sempre a ser morada dos nossos Natais, dos feriados e dos domingos em família. O 21 era Casa, era Carinho, era Amor. O meu 21 é isso mesmo: Família. É a minha Avó, o meu Avô e o meu Padrinho.

Andei anos a ganhar coragem para tatuar um 21 na minha pele em forma de homenagem. Demorei uma eternidade por medo das amigas agulhas... Mas, há 3 anos atrás, decidi fazer três tatuagens e duas delas em homenagem. Foi a primeira. O meu 21 está agora no meu pulso marcado a tinta, e no meu coração gravado permanentemente, floreado com carinho, cuidado e amor.

A tatuagem, vocês nem sonham a felicidade, o orgulho e emoção que me deu olhar para ela (ainda me dá!). E um dia marcado também por ter conhecido também a minha tatuadora, que é uma das pessoas mais lindas do mundo. Nada é por acaso, acredito. O meu 21 tinha de ser com ela! Não foi num dia 21, mas foi um dia que me encheu a alma!

Obrigada Milorde, pela oportunidade de homenagear, mais um bocadinho, quem me ajudou a ter uma infância feliz. Há sinais que a vida nos dá. E este, nesta época do ano, fez tanto sentido. Obrigada!

 

O dia mais feliz com a Ana D.

Milorde, 07.12.21

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A minha convidada desta semana é a Ana D. autora do blogue Green Ideas. Apaixonada pela escrita a Ana partilha com os seus leitores todos os momentos do seu mundo green. Mal entrou pelos meus portões ficou maravilhada com o jardim que, mesmo com este tempo um pouco cinzento, não perde a sua beleza.

A Maria serviu-nos um chá verde e a Ana estava prontíssima para partilhar comigo o seu dia mais feliz.

Convidou-me Milorde a falar sobre os meus dias felizes. Assim sendo, aqui estou para lhe contar como fui feliz em todos os dias da minha vida com o meu querido Pai, que inesperadamente perdi em março e de quem tenho a maior das saudades.

O meu Pai era um homem extraordinário. Um homem de caráter e de grande resiliência. Sempre afável. Sempre disposto a ajudar. Um apaixonado por História. Um bom conversador. Tínhamos uma cumplicidade sem igual e por isso, quero deixar-lhe aqui nota de quão felizes foram os nossos dias.

 

Meu Pai,
 
Foi feliz cada dia
Em que contigo vivia
E que contigo sorria
Dia após dia!
 
Foram felizes e cheios de alegrias
Todos esses dias
Que caminhámos, lado a lado
Que caminhámos, de braço dado
 
Foram felizes e cheios de alegrias
Todos esses dias
Entre conversas e risadas
Leituras e caminhadas
Com tamanha cumplicidade
E tanto amor e amizade
 
Foram felizes todos os dias 
Que contigo vivi
Desde que nasci
Até que contigo, morri!