Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Milorde

O dia mais feliz com o Corvo

Milorde, 14.12.21

O dia mais feliz.png

O meu convidado desta semana é o Corvo, autor do blogue O Sítio do Corvo. Vestido de fato e gravata e bem penteado, o Corvo entrou pelos meus portões com um grande sorriso, satisfeito com o meu convite. Começamos por falar das minhas laranjeiras que oferecem lindas laranjas e um perfume inebriante e logo depois sentamo-nos em frente à lareira onde um fogo crepitava. O Corvo tem sempre muitas histórias para contar que eu fui ouvindo deliciado enquanto degustávamos uma chávena de chá de hortelã e uns biscoitos de gengibre e canela.

No entanto a história principal ainda estava por contar e o Corvo não se fez rogado e então contou-me aquele dia mais feliz.

Muito honrado pelo convite do Milorde para dissertar sobre o dia mais feliz da minha vida, apraz-me confessar com toda a sinceridade que foi aquele em que a periquita me disse sim ao meu pedido de casamento. Depois tive mais dias muito felizes mas esse foi o mais feliz, sobretudo porque não esperava que ela aceitasse devido à feroz e acesa concorrência de que era vítima.

Quando lhe perguntei se casava comigo, conhecia-a há seis dias, apenas, quando ali chegara enviado pela minha empresa empregadora, JAEA a fim de realizar um trabalho previsto para dez dias. Fui habitar um quarto de uma casa muito grande, dispensado por uma família composta de um rapaz, esposa e duas irmãs dele que a habitava.

Entrava-se para essa casa diretamente por uma varanda a todo o comprimento da casa, e nas extremidades dela as entradas para a casa propriamente dita. Sobre o lado esquerdo era a entrada para o meu quarto e na parte direita a entrada da dita família. A parte que me fora dispensada além de quarto tinha casa de banho privativa, sala e uma pequena cozinha, que pouca falta me fazia pois desde logo fiz tenção de nunca utilizar tirando, obviamente, o café pela manhã.

Cheguei, instalei-me fui tomar banho e vestir roupa limpa e pensei dar uma volta pela vila a ver aonde podia ir jantar e comer durante os dias que ali estivesse. Nestes preparos saio porta fora para a varanda e deparo-me com uma rapariga que entrava pela porta dela para dentro da sua casa. Achei-a muito bonita e agradável mas não mais que isso. O tal clic não ligou. Saí e encontrei uma pensão, jantei, sentia-me cansado da longa e fatigante viagem, e resolvi ir dormir.

Chego, entro para a varanda já nossa conhecida e reparo em quatro poltronas a todo o comprimento da varanda que antes não vira. Sento-me numa, acendo um cigarro e ponho-me a pensar na melhor maneira de iniciar o trabalho que ali me levara. Subitamente pela porta meio aberta da família moradora, tenho uma visão de sonho envelopada num bonito vestido amarelo clarinho a movimentar-se dentro de casa. Imediatamente todas as preocupações sobre o trabalho se eclipsaram e levantei-me de um salto. Os nossos olhos cruzaram-se e soube imediatamente que encontrara a mulher da minha vida.

Nessa noite pouco ou nada dormi e foi em muito mau estado, físico e racional, que dei início ao trabalho e durante ele só pensava em voltar rapidamente para casa para confirmar se sonhara ou se vivia uma realidade. Voltei, tratei de mim como de véspera, com apenas uma maior atenção. Barbeie-me pela segunda vez nesse dia, coisa que nunca fizera e fui sentar-me na varanda na esperança de a ver outra vez e pus-me a pensar na minha vida. Nunca conjeturei que ela podia ser a mulher do rapaz dono da casa, nem a primeira rapariga que vira. Instintivamente soube com maior clareza do que a do cristal reflete que elas eram as irmãs. Como de facto eram.

Algum tempo depois a família veio cá para fora, o rapaz, a esposa e a irmã mais nova - a primeira rapariga que vira na noite anterior -, sentaram-se cada um numa poltrona, mas ela não. A senhora dona dos meus pensamentos não veio. Fiquei muito triste e infeliz e recriminei-me que a culpa era minha por ter ocupado um lugar que logicamente era dela visto as poltronas serem só quatro.

Apresentámos-nos, conversámos, bebemos conhaque que amável e gentilmente a mulher do rapaz foi buscar lá dentro e por ela soube que a irmã mais nova, essa que ali se encontrava, viera para Angola para se casar com um primo em segundo grau. Ouvi desinteressado porque o que eu queria saber era sobre a outra irmã e por desgraça minha em tanto paleio nem uma palavra sobre ela foi dita.

Como ela não aparecia levantei-me para ir jantar e eles fizeram o mesmo. Levantaram-se e entraram em casa, eu fui jantar, mas como estava por de mais assoberbado pela imagem que me preenchia o todo, nada comi e voltei rapidamente para a varanda. Abençoada intuição. As duas irmãs e a cunhada delas também vieram e pude finalmente conhecê-la. Chamava-se Maria do ... e eu fui o rapaz mais feliz do mundo e cercanias por o saber pela sua boca. Durante quatro dias a cena repetiu-se; eu vinha para a varanda e ela também, às vezes a irmã fazia-lhe companhia, mas era por pouco tempo porque quase sempre lembrava-se que se esquecera disto ou daquilo por arrumar na cozinha e eu ficava sozinho ali com ela e desfrutava do Céu. E foi assim que quatro ou cinco dias depois lhe perguntei se casava comigo.

Ficou muito admirada, respondeu-me que nem sequer nos conhecíamos e eu disse-lhe que a minha alma a conhecia de toda a vida.

- Casas comigo, Maria? Juro amar-te e fazer-te feliz toda a vida.

E ela disse sim, casava mas pedia-me para lhe dar alguns dias de namoro porque nunca namorara na sua vida, e não queria ser a primeira mulher no mundo a casar primeiro e namorar depois.

Aceitei imediatamente. Estar e falar com ela e ouvi-la falar comigo era toda a minha realização. Namoros do meu tempo. Mãozinha dada, às vezes mais ousada, um beijo furtado aqui, outro oferecido ali, realização de duas almas em comunhão. Dois meses depois era e seria sempre a minha adorada mulher até trinta e sete anos depois Deus me dizer que ela já não era minha.

Amei-te quando te vi, e nos teus olhos eternamente me perdi.

 

O dia mais feliz com a Peixe Frito

Milorde, 02.11.21

O dia mais feliz.png

A convidada desta semana da minha recente rubrica é a Peixe Frito. Todos a conhecem aqui no Sapo Blogs e conhecem os seus textos sempre cheios de humor, é impossível não ler os seus escritos sem uma gargalhada! Por mais pessoas assim, por favor. Hoje ela está aqui, sentada no meu sofá a tomar uma chávena de chá, e a contar-me um dos dias mais felizes da sua vida.

O dia mais feliz da minha vida. Ora aí está uma tarefa praticamente impossível, não de ser realizada mas sim de condecorar um dia de toda a minha vida em que a percentagem de euforia bateu os 100% ou andou lá a roçar perto - muito grata por me relembrares que estou a ficar carcaça, querido Milorde. A quantidade de tempo que eu tive ali assim a olhar para a morte da bezerra a ver a minha vida a passar à frente dos meus olhos, só a ver se me recordava de algum dia digno da medalha e o assustador não foi o quase não encontrar o dito mas sim a quantidade de memórias armazenadas que tenho, eu já ali quase a adormecer tal a exorbitância de horas e ainda com direito ao director’s cut, as cenas por detrás dos bastidores (ou pela frente) além das cenas repetidas (a dada altura, acho que fiz como a sardinha e passei pelas brasas), que era cada cavadela cada minhoca, algumas ainda em disquete! Tive de passar tudo para a Cloud, catalogando por ano e categoria, para posterior mais fácil acesso. Uma trabalheira terrível - e após ter gasto resmas de post it’s às cores a marcar episódios e referências em toda a minha vida, mandei tudo às urtigas. Ah pois é. Já vivi muita coisa linda, conheci pessoas e sítios maravilhosos, sei que ainda muito mais a vida me irá prendar e enriquecer.

Não querendo ser a gaja do cliché armada em hippie a dizer “todos os dias são dias lindos e maravilhosos, sou todos os dias feliz e mesmo quando estou em baixo, tento encontrar algo que me aqueça o coração, nem que seja o sol quentinho ou o ouvir os passarinhos chilrearem” - o que, de facto, para mim é verdade. Tento sempre encontrar algo que me alegre e deixe as nuvens negras para trás. É o meu sistema de segurança integrado, senão passo-me e viro furacão, arraso tudo, arranco árvores do chão, ladro a gatinhos e faço olhar matador a toda a gente - todos os dias têm algo especial. Podia partilhar “n” histórias da minha vida mas decidi pela mais simples de todas: o dia em que criei o meu blog. Sim, foi um dos dias da minha vida, em que a lucidez não estava em alta - e falo a sério, estava a viver uma fase conturbada na vida pessoal - mas que ainda assim, arrisquei.

Como se criar um blog fosse algo mega hiper super barbatana. Na altura, para mim era. Senti uma enorme alegria por ter criado o meu espaço e é ele que, de forma consistente, me dá pedaços de alegria diária. Seja porque sempre adorei escrever e finalmente dei a cara - com nick, está certo, mas de certa maneira expus-me - deixando fluir o meu sentido de humor, um pouco comedido mas a fluir, me permitindo a mim ser ainda mais eu própria, seja pelo factor de que adoro interagir com os leitores e amigos bloggers, seja porque conheci a minha melhor amiga através do blog, uma das pessoas que mais amo na minha vida. Por si só, como dá para observar, é um dia ao qual devo imensa gratidão e me dá felicidade. Não necessariamente pelo dia em si, pelo que vivi nele na íntegra, mas porque ele foi um “pressure point” para muitas alegrias de futuro, entre elas, uma amizade como nunca tive e certamente, nenhuma se igualará. Por isso, é isso mesmo. (um dos) dia mais feliz da minha vida foi o dia em que decidi fazer parte da blogosfera, espalhando o terror ciberneticamente (como se o pessoalmente não bastasse), angariando assim uma panóplia de mundos (o dos leitores e amigos), experiências, confidências e amizades que valem o seu peso em ouro (pena que a minha amiga é magra, senão já a tinha rifado por camelos). Todos os pedaços juntos, fazem um dia a bater os 100%, passam até ao infinito e mais além. E melhor que isso, dificilmente - bem, quer dizer... se calhaaaaar... 😉"

 

O dia mais feliz com o Marco

Milorde, 26.10.21

O dia mais feliz.png

O segundo convidado desta rubrica é o Marco. Dono de uma escrita peculiar acompanhada sempre com um desenho colorido, o Marco já conquistou muitos leitores pelos blogues. Por vezes está no Sardinha sem Lata mas hoje ele é o meu convidado de honra para nos contar o dia mais feliz da sua vida.

Por vezes é difícil responder a esta pergunta, porque são vários e como eleger um? Vou escolher um da minha infância.

Dia de Natal

Devo ter uns 8 anos e como tradição na minha família, na noite de Natal eu e minha irmã e os meus primos íamos todos à casa dos meus avôs, deixar lá um sapatinho. Era tradição, não sei quem começou, mas fomos educados assim.

Depois ficamos a jogar às cartas e ao loto, os meus avós eram pessoas muito simples do campo e não davam importância a essas coisas era o que tínhamos para distrair nas noites que passávamos lá na casa deles. Naquele tempo não havia telemóveis e os programas de televisão eram de Natal ou estava a dar o “Sozinho em casa” (devo ter visto umas 20 vezes) e para passar o tempo preferíamos jogar.

Quando fomos embora passávamos sempre pelo madeiro para aquecer, porque as noites no interior são geladas , mas a noite ia ser longa para mim, porque estava ansioso pelas prendas, porque só recebia prendas pelo Natal.

Na manhã de Natal tinha que ir à Missa de Natal, e lembro-me que demorava tanto que e era uma seca e não se podia fazer nada senão estar lá parado, depois havia sempre o convívio depois da missa, mas eu já estava em pulgas para ir abrir as prendas, mas tinha que esperar, porque não estava lá ninguém para abrir a porta, quando fomos a casa dos meus avós, fomos todos ver as prendas, a minha era uma caixa grande, que nem cabia no sapato. Quando abri era um camião dos bombeiros telecomandado, com fio claro.

Simplesmente era o melhor presente que tinha recebido e acho que até hoje deve ser o melhor presente que recebi ou que teve mais significado.

O resto do dia já sabem como se passou, foi brincar, brincar, brincar, claro que as pilhas não aguentaram nada, mas brinquei com ele mesmo sem pilhas. Ainda o tenho, tem algumas peças partidas, mas acho que isso faz parte de brincar.

 

Queres fazer parte deste projeto? Escreve-me e conta-me o dia mais importante da tua vida!