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Milorde

Era o vinho, meu deus, era o vinho!

Milorde, 15.11.21

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Lembram-se da excursão que o Paulo das camionetas realizou? Pois eu ontem soube de algo que vou partilhar com vocês. Não é que eu queira saber da vida das outras pessoas, isso não me interessa para nada (que ideia!), mas os habitantes desta vila pacata insistem em vir cá a casa me contar as coisas e eu, mais por boa educação que outra coisa, escuto sempre com atenção!

Bem, voltando ao dia da excursão, chegou-me aos ouvidos que a Sra Almerinda encheu bem a pança de carne de leitão assado ali para os lados de Mealhada juntamente com uma caneca de vinho e que, já que a senhora tinha pago a caneca inteira, não iria deixar o resto para o restaurante. Que não me faça mal - dizia ela enquanto sorveu o vinho até à última gota.

Já na camioneta a senhora começou a sentir-se mal. Dizia que via tudo à roda tal como se ela se tivesse sentado num carrinho da montanha-russa.

- Parai a camioneta, parai! - diziam as pessoas.

- Mas eu não posso parar aqui no meio da auto-estrada - dizia o motorista - só na próxima área de serviço.

Mas já não foi a tempo. A senhora vomitou no chão do autocarro. Até as lembranças de Fátima ficaram manchadas de bordeaux. O motorista abriu as portas de trás em andamento para as pessoas apanharem ar pois o cheiro era nauseabundo. Quem olhasse para o chão do autocarro via todo o vinho desperdiçado de um lado para o outro ao sabor das curvas.

A Sra Almerinda ficou doente durante 3 dias e disse mesmo que nunca mais em toda a sua vida tocaria numa gota de álcool.

 

Número estrangeiro

Milorde, 08.11.21

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Esta manhã a Maria recebeu uma chamada de um número estrangeiro. Como é um smartphone que a criatura tem, os tais telefones inteligentes, apareceu no ecrã que a chamada provinha de Frankfurt.

- De onde, Milorde?? - perguntou ela.

- De Frankfurt! - respondi.

- De frango frito?!

Depois de espetar uma gargalhada claro que lhe expliquei que Frankfurt é uma grande cidade que se situa na Alemanha.

- ah tá bem... e porque é que me ligaram?

- Certamente que foi engano, não se preocupe.

- Espero bem que sim senão mando-os a todos darem uma curva!

- Mas você não fala alemão, criatura.

- Não faz mal, eles percebem na mesma!

Sem comentários.

A saca das sacas

Milorde, 31.05.21

Caros leitores, bom dia! Peço desculpa pela minha ausência. Outros assuntos pessoais e profissionais levaram a este período de ausência tão longo que hoje não poderia deixar de iniciar este texto (humorístico tal como todos os outros, porque isto é um blog de humor) com um pedido de desculpas sincero que espero que compreendam. Prometo ser mais ativo e tentar trazer alguma alegria e gargalhadas a todos vocês a quem a vida poderá estar mais cinzenta ainda devido a esta pandemia que teima a não desaparecer. Como se costuma dizer em jeito de brincadeira, nunca vi algo criado pelos chineses a durar assim tanto tempo!

Bem, pedido de desculpas feito, agora vamos ao que realmente me trouxe até aqui.

Não sei se nas vossas casas existe, mas nesta minha humilde mansão que tão bem conhecem, existe uma saca das sacas. Para quem não sabe o que é, uma saca das sacas é simplesmente uma saca maior onde colocamos todas as outras para que fiquem arrumadas e não espalhadas em todos os cantos das nossas casas.

Posso vos confessar que a minha saca das sacas já atingiu um volume que eu não sei como ainda consigo colocar mais sacas lá dentro. Eu sei que não é nada ecológico mas sempre que vou às compras esqueço-me sempre de levar um saco.

Ora esta manhã fui ao supermercado apenas, dizia eu, para comprar um quilo de laranjas e um frasco de mel. Porém, devido a todas as estratégias de marketing que utilizam, acabei por trazer umas bolachas de arroz com cobertura de iogurte que estavam em promoção, comprei uma embalagem de bebida de aveia porque ficava mais em conta trazer as quatro, e trouxe também um saco de cenouras que trazia mais 25% grátis.

Quando cheguei à caixa e a funcionária me perguntou se queria uma saca, claro que eu disse que sim, caso contrário seria impossível trazer tudo nas mãos. Resumindo, mais uma saca para a saca das sacas! Isto até parece um trava-línguas daqueles que aprendemos na escola.

Por isso, serve este meu texto para vos dizer que: façam o que eu digo e não façam o que eu faço. Levem sempre saco pessoal porque temos que olhar pelo nosso ambiente. Deste lado eu prometo (com os dedos cruzados atrás das costas) que vou tentar, antes de sair de casa para ir ao supermercado, ir sempre até à saca das sacas para trazer uma comigo.

 

Dívidas

Milorde, 08.11.19

A Maria anda atulhada de trabalho. Todos os dias ela prepara as refeições, levanta a mesa, lava a loiça, trata da roupa e faz a limpeza da mansão. Certo dia disse-me, em tom de brincadeira mas falando a sério, que quando a Condessa e a sua neta regressassem às suas casas, que precisava de férias. Talvez fosse visitar a sua mãe que vivia numa aldeia a 20 quilómetros de distância daqui, durante duas semanas, o que me deixou alarmado pois se tal acontecesse iria voltar aos meus dias de solidão com o Misha. Tenho de pensar seriamente em oferecer-lhe um salário para a motivar mas não sei como... tenho gasto todas as minhas economias e peças de prata para sustentar os caprichos da Condessa.

Sempre que a Maria vai ao talho comprar alguma carne, o Sr. Constantino diz-lhe que a conta está a aumentar de dia para dia, e pede que eu lhe vá fazer uma visita para "acertarmos contas". Certamente que não me vai oferecer uma chávena de chá enquanto conversarmos.

Enquanto estou a escrever este texto, alguém bate à porta e eu, por instinto, sussurro à Maria que diga, a quem quer que seja, que eu não estou.

- Quero falar com sua senhoria, Milord - ouço a voz da D.ª Aurora da mercearia.

- Oh lamento Aurora, Milord acabou de sair.

- Não me venhas com essa conversa Maria, eu sei bem que ele está em casa. Se ele não me receber eu vou começar aqui aos berros a dizer o quanto ele me deve. Faço um escândalo!

Levantei-me de um salto e corri para a porta.

- Oh D.ª Aurora, que prazer que tenho em recebê-la na minha humilde mansão, faça o favor de entrar - retorqui.

Ela entra e cruza os braços sobre o peito olhando-me com má cara. Ordeno à Maria que prepare  um chá para a nossa amiga.

- Não seja hipócrita, Milord. Eu não quero chá nenhum. Venho aqui receber o que me deve.

Entrega-me um papel com a soma total do meu fiado. Fico horrorizado! No papel está tudo descrito, os produtos e os seus valores, com uma soma total de 100€. Porém, ao reparar pormenorizadamente na lista, vejo coisas que desconheço ter pedido, tais como: lâminas de barbear, pastilhas elásticas, cerveja e uma caixa de preservativos.

- Desculpe minha senhora, mas há aqui coisas na lista que eu não comprei! - reclamei.

- Pois claro que não, Milord. O senhor vive com mais gente em casa, não sei se sabe - respondeu-me a D.ª Aurora.

Não precisei de pensar muito para perceber quem tinha comprado aquelas coisas e colocado na minha conta. O Sebastião vai ouvir das boas quando chegar a casa da escola!

Resignado, peguei na minha carteira e retirei todas as notas que lá continha. Fiquei a olhar para elas, triste. A D.ª Aurora arrancou-mas das mãos, contou-as uma por uma e depois colocou-as por dentro da camisola, no sutiã.

- Muito obrigado, Milord, e até à próxima - disse e saiu.

- Quando eu apanhar aquele marmanjo, vou-lhe puxar aquelas orelhas até ele me confessar para quem ele anda a comprar as cervejas, porque eu não acredito Milord que ele beba qualquer bebida alcoólica. Sei bem que o meu filho não é um santo mas também não é alcoólico.

- Pois, pois - foi tudo o que consegui dizer.

 

Os cogumelos

Milorde, 07.11.19

Esta manhã a Condessa estava mais bem disposta. Disse que dormiu bem, apesar da tosse que todas as noites a importuna, e que hoje queria ir dar um passeio pela aldeia. Bem que precisa, pensei cá para comigo. Não sei se já referi mas a Condessa Bernadette é uma senhora de bom porte, pesa cerca de 90 quilos, e um pouco de exercício físico não só fará bem para a sua saúde como para o seu corpo. Disse-lhe que a acompanhava.

- Pauline, minha querida, queres vir connosco? - perguntou-lhe a Madame.

- Ah... não! Prefiro ficar com a Marie.

Maria tem-lhe ensinado a fazer ponto cruz, algo que pensava estar fora de moda, mas a miúda tem sido bastante aplicada e tem feito trabalhos muito bonitos.

Saímos para o ar fresco da manhã. O sol espreitava timidamente por entre as nuvens após alguns dia chuva, e o chão estava coberto de folhas coloridas que caíam das árvores a todo o instante. Estava bastante agradável a nossa caminhada, porém, depois de alguns minutos, a Condessa disse:

- Ai não aguento, vou sentar-me ali naquelas pedras para repousar um pouco! Já estou cansada.

- Mas... Madame nós só caminhamos apenas uns 100 metros!

- E então? Você pensa que tenho a sua idade, Milord?

Sentou-se e retirou da sua mala um leque florido para o abanar um pouco contra o seu rosto. Sentei-me junto a ela e fiquei a observar as árvores que ficavam cada vez mais nuas. Entretanto, a Condessa guardou o leque na sua mala para depois tirar os seus óculos de leitura e um livro de bolso. Realmente as bolsas das mulheres estão sempre cheias de coisas. Reparei que na capa do livro estava uma mulher vestida com saia curta e uns collants pretos. O título era: Je suis une secrétaire soumise a ses patrons. [Eu sou uma secretária submissa aos meus patrões]. Um romance erótico!

Nem queria acreditar. Fiquei chocado! Nem a minha boca abri e continuei a observar as árvores. Contudo, de repente, ela levanta os olhos do livro e fica a olhar especada para o outro lado da rua.

- Não posso acreditar. C'est des champignons!

Apontou para uns cogumelos que cresciam junto a umas árvores no mato em frente. Disse-lhe que jamais comeria daqueles cogumelos que provavelmente eram venenosos. Ela bateu-me com o livro no braço.

- Não diga disparates, seu estúpido! Aqueles cogumelos são ótimos. Vamos apanha-los para o almoço.

Guardou as suas coisas na mala e levantou-se. Atravessou a rua em passos acelerados, já cheia de uma renovada energia vinda não sei de onde, e subiu o pequeno muro para o mato.

- Tenha atenção, Madame! - dizia eu com receio.

Agachou-se e apanhou-os a todos, ficando com as mão todas sujas de terra, uma imagem que nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que uma Condessa mandava os outros fazer o trabalho por si.

- Oh, ali ao fundo tem mais.

- Deixe-se estar que aqueles eu apanho-os, Madame!

Mas ela nem ligou, continuou a caminhar na direção dos outros cogumelos e eu seguia-a com todo o cuidado pois o chão estava húmido da chuva. Quando estava a chegar junto dos outros cogumelos, a Condessa desequilibrou-se e com um grito caiu desamparada com a cara no chão!

- Oh Deus! Madame está bem?! - perguntei alarmado enquanto a ajudava a levantar-se. Estava com a cara toda suja de lama.

- Deixe, Milord. Eu perdi a vontade de comer cogumelos!

Entramos em casa e mandei logo a Maria preparar um banho quente para a Madame.

Uma manhã atribulada

Milorde, 04.11.19

Amanheceu. Acordei com o Misha a arranhar a porta do meu quarto para me pedir comida. Levantei-me e desci até à cozinha para lhe dar um pouco de leite. Estranhei a casa ainda estar em silêncio mas, como ontem foi dia de festa, é natural que estivessem todos a descansar. Fiz um café para mim e sentei-me na minha poltrona, na sala de estar, a ler um jornal antigo que guardo para fazer as palavras cruzadas. Porém, ouço passos lá em cima e vejo a Maria a descer as escadas esbaforida.

- Passa-se alguma coisa, Maria?

- Ela está a cagar-se toda lá em cima, Milord. Eu não aguento, juro-lhe que não aguento! - respondeu-me.

Corri escadas acima e encontrei a Condessa pálida como a cera de uma vela, ainda de robe, sentada na cama. Perguntei-lhe o que se passava com ela.

- Oh, je suis malade! - respondeu-me.

- Mas o que aconteceu, Madame? Está tão pálida!

- Foi a salada de fruta, Milord! Tinha kiwi et je suis allergique ao kiwi.

- Oh, lamento Madame... eu não sabia!

Bonito. Agora a Condessa está com uma intoxicação alimentar. A Maria chegou ao quarto com uma banana cortada às rodelas, dizendo que era bom para prender o intestino. Depois colocou uma máscara, como aquelas que os médicos usam, para poder ir limpar a casa de banho.

Pauline sentia-se tão perdida no meio daquele caos que tive pena dela e pedi-lhe para me acompanhar na mesa do pequeno-almoço. A Condessa não desceu, preferiu ficar mais um pouco nos seus aposentos. Sebastião juntou-se-nos e dirigiu-lhe um sorriso caloroso. Disse que esteve ontem à noite a aprender um pouco de francês para melhor se comunicar com as nossas visitas. Agradeci-lhe o gesto, contudo, para mostrar o que sabia, virou-se para ela e disse:

- Voulez-vous coucher avec moi, ce soir! [Quer deitar-se comigo esta noite?]

A Pauline ficou chocada e deu-lhe um estalo na cara. Correu escadas acima para ir ter com a avó.

- Que é que eu disse de mal? - perguntou.

Fiz-lhe a tradução e ele jurou-me que não sabia qual era o significado, que aprendeu aquelas palavras com uma canção, achou-as tão bonitas e quis impressionar.

Parece que não está nada fácil a situação.