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Milorde

Chuva de outono

Milorde, 16.10.21

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Coloquei roupa na máquina para lavar. Com uma semana de temperaturas altas para a época, um grande sol e céu limpo, ainda pensava eu que iria a tempo de secar mais roupa antes da semana de chuva que se avizinha. Coloquei uns headphones e fui dar a minha caminhada como todas as manhas para vila ao som dos Boney M.

By the rivers of Babylon, there we sat down
Ye-eah we wept, when we remembered Zion

Mais uma curiosidade sobre Milorde: adoro músicas dos anos 70/80. O céu esta manhã estava cinzento mas nada fazia prever que minutos depois tive que correr desalmadamente pela rua para chegar a casa o mais rápido possível afim de não apanhar uma molha.

Quando cheguei a casa a Maria já tinha laminado os cogumelos para o almoço. O Sebastião ainda dorme. O Misha veio dar-me as boas vindas enrolando-se nas minhas pernas e agora está a aninhado junto aos meus pés enquanto escrevo.

Adoro o outono, mas é que adoro mesmo!

Os cogumelos

Milorde, 07.11.19

Esta manhã a Condessa estava mais bem disposta. Disse que dormiu bem, apesar da tosse que todas as noites a importuna, e que hoje queria ir dar um passeio pela aldeia. Bem que precisa, pensei cá para comigo. Não sei se já referi mas a Condessa Bernadette é uma senhora de bom porte, pesa cerca de 90 quilos, e um pouco de exercício físico não só fará bem para a sua saúde como para o seu corpo. Disse-lhe que a acompanhava.

- Pauline, minha querida, queres vir connosco? - perguntou-lhe a Madame.

- Ah... não! Prefiro ficar com a Marie.

Maria tem-lhe ensinado a fazer ponto cruz, algo que pensava estar fora de moda, mas a miúda tem sido bastante aplicada e tem feito trabalhos muito bonitos.

Saímos para o ar fresco da manhã. O sol espreitava timidamente por entre as nuvens após alguns dia chuva, e o chão estava coberto de folhas coloridas que caíam das árvores a todo o instante. Estava bastante agradável a nossa caminhada, porém, depois de alguns minutos, a Condessa disse:

- Ai não aguento, vou sentar-me ali naquelas pedras para repousar um pouco! Já estou cansada.

- Mas... Madame nós só caminhamos apenas uns 100 metros!

- E então? Você pensa que tenho a sua idade, Milord?

Sentou-se e retirou da sua mala um leque florido para o abanar um pouco contra o seu rosto. Sentei-me junto a ela e fiquei a observar as árvores que ficavam cada vez mais nuas. Entretanto, a Condessa guardou o leque na sua mala para depois tirar os seus óculos de leitura e um livro de bolso. Realmente as bolsas das mulheres estão sempre cheias de coisas. Reparei que na capa do livro estava uma mulher vestida com saia curta e uns collants pretos. O título era: Je suis une secrétaire soumise a ses patrons. [Eu sou uma secretária submissa aos meus patrões]. Um romance erótico!

Nem queria acreditar. Fiquei chocado! Nem a minha boca abri e continuei a observar as árvores. Contudo, de repente, ela levanta os olhos do livro e fica a olhar especada para o outro lado da rua.

- Não posso acreditar. C'est des champignons!

Apontou para uns cogumelos que cresciam junto a umas árvores no mato em frente. Disse-lhe que jamais comeria daqueles cogumelos que provavelmente eram venenosos. Ela bateu-me com o livro no braço.

- Não diga disparates, seu estúpido! Aqueles cogumelos são ótimos. Vamos apanha-los para o almoço.

Guardou as suas coisas na mala e levantou-se. Atravessou a rua em passos acelerados, já cheia de uma renovada energia vinda não sei de onde, e subiu o pequeno muro para o mato.

- Tenha atenção, Madame! - dizia eu com receio.

Agachou-se e apanhou-os a todos, ficando com as mão todas sujas de terra, uma imagem que nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que uma Condessa mandava os outros fazer o trabalho por si.

- Oh, ali ao fundo tem mais.

- Deixe-se estar que aqueles eu apanho-os, Madame!

Mas ela nem ligou, continuou a caminhar na direção dos outros cogumelos e eu seguia-a com todo o cuidado pois o chão estava húmido da chuva. Quando estava a chegar junto dos outros cogumelos, a Condessa desequilibrou-se e com um grito caiu desamparada com a cara no chão!

- Oh Deus! Madame está bem?! - perguntei alarmado enquanto a ajudava a levantar-se. Estava com a cara toda suja de lama.

- Deixe, Milord. Eu perdi a vontade de comer cogumelos!

Entramos em casa e mandei logo a Maria preparar um banho quente para a Madame.