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Milorde

Caprichos de mãe

Milorde, 11.09.23

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A minha mãe não foi trabalhar porque teve uma consulta no centro de saúde. Quando chegou a casa disse:

- Ai não quero cozinhar, hoje vamos almoçar no restaurante chinês, já há muito tempo que não lá vou.

- Mãe, eu não acho boa ideia. O restaurante chinês é um pouco caro. E a minha conta bancária está a gritar por alimento! Se ainda gastar mais tenho a certeza que um dia destes o banco vai me ligar para me aconselhar a desativar esta conta!

- Não te preocupes com isso que eu pago!!

Oh meus estimados leitores, é que ela nem precisou de dizer isso duas vezes.

Vesti a minha camisa cor de rosa (sim, um homem também veste rosa), uma calça de linho preta, calcei uns ténis básicos, coloquei aquele meu perfume que ela diz ser muito enjoativo, peguei na chave do carro e lá fomos até à cidade onde fica o tal restaurante.

Quando chegamos à cidade, e após voltas e mais voltas (onde a minha mãe ordenava para onde me devia dirigir qual polícia sinaleiro), não havia nenhum estacionamento livre perto do restaurante e, então, tive que me distanciar um pouco para arranjar um sítio onde deixar o meu carro sem arriscar apanhar uma multa que os nossos amigos não perdoam.

Chovia muito e os meus vidros estavam embaciados.

- Liga essa coisa para desembaciar os vidros! - ordenou a minha mãe. Bem tentei, mas a "coisa" aparentemente está avariada porque carreguei no botão umas 20 vezes e aquilo não ligou.

Se havia de chover era naquele momento em que nos preparávamos para sair do carro. Ainda esperamos que a chuva amainasse mas ela teimava em não passar.

- Mãe, eu acho que é melhor mudarmos de ideias e vamos antes almoçar no centro comercial.

- Não senhora! Eu quero ir ao chinês. Vamos embora! Eu não tenho medo da chuva!

Penso que nunca corri tanto na minha vida. Se estivesse a participar numa Meia Maratona naquele momento, da maneira como corria qual Rosa Mota pelas ruas do Porto, asseguro-vos que a ganharia. Cheguei ao restaurante com a camisa encharcada.

A comida estava ótima. "Valeu a pena apanhar a chuva", disse a mãe a esfregar a barriga enquanto nos dirigíamos para o carro (a chuva tinha acabado).

Chegamos a casa e, no momento em que ia sair do carro, a chuva recomeçou. Caramba, parece praga!

 

O Milorde apressado

Milorde, 04.11.22

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Era uma manhã em que o céu se pintou de um cinzento escuro de onde caía uma chuva fina que nos lambia de cima abaixo. Saí de casa já atrasado para a minha consulta no hospital que estava marcada para as 11:30 e, a não ser que eu tivesse um jato particular, nunca conseguiria chegar lá a tempo. Há uma coisa sobre mim que vocês ainda não sabem: eu chego sempre atrasado! Não há hipótese. Eu bem tento programar as coisas com tempo, organizar tudo antes, contar todos os minutos, etc., mas mesmo assim há sempre alguma coisa que me atrasa.

Cheguei ao hospital depois de uma condução desenfreada e com o vidro do carro todo embaciado que quase não conseguia ver a estrada. Obviamente não havia um único lugar livre no estacionamento - às vezes até penso que existem pessoas que deixam lá os carros toda a noite ou então chegam às 5 da manhã só para poderem estacionar e complicar a vida aos outros - então tive que estacionar a cerca de 1 km de distância. Tenho sempre um guarda-chuva de reserva na mala do carro mas nesse dia, o dia em que mais precisei dele depois de tantos meses sem chover uma gota neste país, o guarda-chuva tinha desaparecido!

- Este dia tem tudo para correr bem! - disse eu em voz alta.

Corri pelas pedras da calçada dispostas geometricamente no passeio, tal como o meu caro João faz nas maratonas, para ver se não me molhava tanto e quando cheguei ao edifício, ofegante e com o cabelo colado à testa, a fila para o atendimento chegava à porta.

Fantástico. Não tive opção senão aguardar pela minha vez. De repente apareceu uma senhora que dizia querer apenas fazer uma pergunta. As pessoas, na sua boa vontade, deixaram-na passar e quando ela se dirigiu à receção já com o cartão de cidadão na mão para dar entrada no sistema dos seus dados, as pessoas começaram a reclamar. Foi como se ela tivesse colocado um fósforo numa moreia de palha!

- Ó minha senhora, era só uma pergunta!

- Tem que aguardar a sua vez na fila!

A mulher que estava na receção com cara de poucos amigos atrás de um vidro cheio de perdigotos lá lhe disse que tinha que, devido às reclamações, tinha que esperar pela sua vez. A senhora, a reclamar sobre a falta de respeito das pessoas como se ela própria não tivesse faltado ao respeito aos demais, foi para o fim da fila e uma outra, que também dizia querer fazer uma pergunta - pessoas curiosas! - seguiu-lhe o exemplo.

Finalmente chegou a minha vez. Disse à rececionista que estava um pouco atrasado com um sorriso envergonhado que mereceu, nada mais nada menos, um revirar de olhos de uma funcionária já cansada de um dia de trabalho que mal tinha começado. Tinha uns auscultadores com um microfone para onde confirmou o meu nome e o meu número de telefone assim em alto e bom som para o caso de alguém naquela fila interminável me quiser contactar para o que for. Querem privacidade? Não vão ao hospital público.

Quando cheguei a casa tinha uma dor de cabeça descomunal. Coloquei duas aspirinas num copo com água e enquanto as via a desfazerem-se numa espuma branca com bolhinhas pensava em como o tempo passa depressa e nem o sentimos.

Chuva de outono

Milorde, 16.10.21

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Coloquei roupa na máquina para lavar. Com uma semana de temperaturas altas para a época, um grande sol e céu limpo, ainda pensava eu que iria a tempo de secar mais roupa antes da semana de chuva que se avizinha. Coloquei uns headphones e fui dar a minha caminhada como todas as manhas para vila ao som dos Boney M.

By the rivers of Babylon, there we sat down
Ye-eah we wept, when we remembered Zion

Mais uma curiosidade sobre Milorde: adoro músicas dos anos 70/80. O céu esta manhã estava cinzento mas nada fazia prever que minutos depois tive que correr desalmadamente pela rua para chegar a casa o mais rápido possível afim de não apanhar uma molha.

Quando cheguei a casa a Maria já tinha laminado os cogumelos para o almoço. O Sebastião ainda dorme. O Misha veio dar-me as boas vindas enrolando-se nas minhas pernas e agora está a aninhado junto aos meus pés enquanto escrevo.

Adoro o outono, mas é que adoro mesmo!