Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Milorde

A carta

Milorde, 22.10.19

Os dias vão passando sem que nada aconteça. Dou por mim sentado em frente à janela a ver a "banda" a passar com o Misha no meu colo a ronronar. As folhas vão caindo das árvores e ouço a toda a hora a Maria a resmungar que já está farta de apanhar tanta folha do chão. O anjo de pedra que faz xixi para a minha fonte tem uma folha na cabeça à qual ela não chega e por vezes ela põe-se a saltitar para tentar apanha-la de uma forma tão cómica que me rio como um perdido sozinho. Ela pragueja entredentes e lá acaba por desistir.

Entretanto, um senhor que deve andar na casa dos 60 anos, assobia-lhe através das grades e grita-lhe alguns piropos. Ao início ela ignora-o, mas depois farta-se e diz-lhe:

- Vai-te embora seu guarda-chuva sem cabo!

- Anda aqui ver se eu tenho um cabo ou não - respondeu-lhe de volta.

- Se não te pões a andar quem te mostra o meu cabo sou eu, o cabo da vassoura, seu imbecil!

Pergunto-me como é que esta mulher de modos tão rudes foi casada com um homem durante quinze anos e ao fim deixou que ele a pusesse fora de casa. É uma história que vou ter que averiguar mais tarde.

Quando ela entra digo-lhe para nos preparar um chá de camomila porque ela ficou muito nervosa com o sucedido.

- EU NÃO ESTOU NERVOSA, SENHOR! - Grita-me e eu tenho de esconder a cara com as mãos para me proteger dos perdigotos que ela soltou. Contudo, dirige-se para a cozinha e ouço-a a encher água para a chaleira.

Entretanto alguém bate à porta. Que mania que esta mulher tem de deixar o portão fechado só com o trinque. As pessoas entram e batem diretamente à porta e eu não gosto nem um pouco dessa intimidade! Dirijo-me eu próprio à porta e, quando a abro, vejo que é o carteiro.

- Carta para Milord - anuncia.

Agradeço-lhe e vejo que a carta vem de França! Cheiro-a para ver se consigo sentir algum aroma que me faça lembrar do país que tanto amo mas só cheira a papel e a tabaco. Abro-a e, surpresa das surpresas, é uma carta da minha amiga Condessa Bernadette.

 

Meu querido Milord.

Espero que se encontre bem e de saúde. O mesmo não posso dizer de minha pessoa. Aqui em França já faz tanto frio que apanhei uma profunda pneumonia! Ai eu tenho tanta tosse, Milord, e quando respiro os meus pulmões miam tanto que parecem a minha gata quando anda com o cio. Estou tão mal que o meu médico aconselhou-me a sair deste país e procurar outro lugar mais ameno.

Claro que pensei logo na minha mansão na Madeira, mas Milord, eu detesto andar de avião, detesto mesmo! Causa-me urticária só de pensar em entrar num pássaro grande daqueles cheio de pessoas que respiram o mesmo ar que eu, e eu não posso deixar me contaminar mais.

Por isso, pensei em si, meu querido e amado amigo. Pensei na sua enorme mansão e pensei também que não ia se importar minimamente se passasse um mês na sua companhia. Um mês será suficiente para me recuperar e aí já poderei voltar para este país que mais parece um frigorífico na potência máxima.

Espero que não lhe vá causar nenhum transtorno. Parto daqui a cinco dias.

 

Atenciosamente,

Bernadette Croquette

Condessa de Champignon

 

Meu Deus! A Condessa vem passar um mês em minha casa!! Tenho que preparar tudo para a receber devidamente!!! Mas... como vou poder recebê-la condignamente se não tenho dinheiro nem para tocar um cego?! Tenho de me arranjar. Chamei pela Maria para lhe dar a boa nova.