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Milorde

O assédio

Milorde, 03.11.21

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Depois da ilustre visita de ontem que vocês tão bem conhecem tive uma segunda. Estava a preparar-me para iniciar a leitura de um novo livro quando ouvi um motor de um carro a reclamar para a dona colocar-lhe uma outra mudança. Só podia ser a Odete! Se aquela mulher alguma vez colocou a 4ª mudança no seu Opel Corsa A vermelho de 1986 foi provavelmente uma vez sem exemplo. Fui à janela e vi que de facto era ela que tentava estacionar o seu carro numa descida ao lado da minha casa porque o mesmo já só pega de empurrão. Era só fumo no ar e um cheiro a gasolina queimada que vocês nem queiram saber!

A Maria foi abrir a porta e com ar resignado disse que ia voltar a fazer chá.

- Odete, que bom recebê-la na minha humilde mansão! - Fui um pouco hipócrita porque na verdade eu não queria receber mais visitas, muito menos a dela.

A Odete deu-me dois beijinhos muito demorados e sentou-se na poltrona mesmo à minha frente e com grande desplante cruzou as pernas na sua saia travada.

- Milorde, o prazer é todo meu!

Após alguma conversa de circunstância, já o chá estava servido e arrefecido o suficiente para dar um bom gole, a mulher começou por dizer que se sentia um pouco sozinha, que depois da morte da marido nunca mais voltou a ser a mesma, tinhas saudades da mulher que em tempos era cheia de vida e vitalidade. Eu já começava a ficar um pouco cansado daquela conversa e, ao levantar-me, disse-lhe que tinha coisas para fazer e se ela não se importasse eu teria de a acompanhar até à porta, isto tudo com educação.

- Antes disso eu queria dizer-lhe uma coisa, se me permite Milorde.

- Diga, diga.

- Tenho pensado muito em si, principalmente à noite quando me dá aqueles calores que só as mulheres sabem o que é...

- Como?! - o que é que ela estava para ali a dizer? A mulher endoideceu de vez, só pode.

Ela abriu um pouco a blusa, consegui ver que usava um soutien preto de renda, e com ar de lontra aproximou-se mais de mim e com uma voz carregada:

- Esse bigode causa-me umas cócegas nas pernas que não me aguento!!

- Controle-se minha senhora, por favor! Acho que é melhor eu acompanha-la à porta, venha comigo.

Ela não desistiu. Encostou-me contra a parede e com um olhar suplicante ordenou-me:

- Não fuja de mim, Milorde. Por favor, coma-me!!

Comecei a chamar pela Maria para me vir ajudar. Aquela mulher estava possuída! Tentou a todo o custo beijar-me na boca e eu só pedia socorro.

Quando todos cá em casa vieram ver o que se passava, a mulher ficou tão envergonhada que lá me largou a saiu a correr porta fora, apertando os botões da blusa pelo caminho em direção ao carro.

Eu fiquei sem reação durante alguns minutos e depois, quando todos me olhavam de boca aberta estupefactos, eu encolhi os ombros e disse:

- As pessoas estão sempre a surpreender-nos.