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Milorde

A chegada da Condessa!

Milorde, 31.10.19

- Maria está tudo em ordem? - perguntei pela milésima vez.

- Já lhe disse que sim, homem! Já estou a ficar tonta de tanto o ver a caminhar para trás e para a frente, vai romper a carpete se continua. Sossegue a piriquita!

- Não fale assim Maria! Tenha modos, pelo amor de Deus.

Estava vestido com o meu melhor fato e com a minha melhor gravata que estava de tal modo apertada que mal conseguia respirar. O tempo está fresco mas nem por isso deixo de suar em bica. Estou num estado de ansiedade extrema. A Condessa está a chegar!

Olhando pela janela vejo um mar de gente que, apesar da chuva, não deixaram de estar presentes para testemunhar o grande acontecimento do dia e quiçá do ano. Vejo também jornalistas que aguardam pacientemente, de camera e microfone em punho, para dar a notícia a Portugal inteiro. Nunca na minha vida vi tanta gente prostrada à minha porta.

- Sebastião, quando a Condessa chegar tens de a cumprimentar devidamente com uma vénia não muito exagerada tal como eu te ensinei e dizer "como está, madame" - disse ao rapaz que também estava vestido a rigor e com cara de poucos amigos por ser obrigado a participar daquela cena.

- Eu sei, Milord - respondeu - posso comer alguma coisa, por favor? Estou cheio de fome, ela nunca mais chega.

- Nem penses! Vais esperar como os outros - repreendeu-o a Maria.

Também ela estava vestida a rigor. Não com um vestido, tal como ela queria, mas sim com uma farda (preta e branca) de empregada doméstica que encontrei perdida no sótão. Ao início ela recusou-se a vestir aquilo alegando que cheirava a mofo e a mijo de rato. Fez-me gastar um dinheirão levando-a para a lavandaria (algo que ela poderia perfeitamente fazer em casa), como se me castigasse por a obrigar a usar uma farda, mas eu não posso arriscar fazer figura de ridículo perante a Condessa. A Maria é, de facto, a minha empregada e, então, terá que se vestir como tal.

De repente, ouvimos um burburinho vindo de fora acompanhado com alguns "ah" de exclamação e corremos todos para a porta. O que vi lá fora deixou-me completamente de queixo caído. A Condessa de Champignon chegou... numa limusina! Preta, brilhante.

Atravessamos o pequeno jardim até ao portão que já estava aberto de par em par. Estava instalado o silêncio total. Toda a gente esperava, expectante, para ver a Condessa sair daquela viatura. O mordomo deveria andar pela casa dos 40 anos, de tez morena e com um fino bigode. Estava vestido com um smoking de bom corte, luvas brancas nas mãos finas e um chapéu de chofer. Saiu do lugar do condutor sem dizer palavra e dirigiu-se para o outro lado do carro para abrir a porta de trás.

Mal a Condessa Bernadette saiu da limusina vários flashes obstruíram a minha visão. Ela elevou a sua mão rugosa para proteger os olhos, ligeiramente desconfortável, e reparei que me procurava. Ordenei a todos que parassem com as fotografias com uma voz firme para mostrar a minha posição. A Condessa usava um vestido simples rosa claro.

- Madame, fico muito contente por ver que chegou bem. Como está? - disse fazendo uma vénia.

- Oh, je suis très fatiguée, mais je suis heureuse de bien arriver chez vous, Milord.

Toda as pessoas olharam para ela interrogativos. A Maria deu-me uma cotovelada no braço e acrescentou: - o que é que ela disse??

A Condessa levou a mão à boca para abafar um riso.

- Eu esquecer que estou em Portugal. Desculpe. Estou bem, obrigada.

Toda a gente se riu e aplaudiu enquanto mais flashes disparavam.

- Madame, esta é a Maria, a minha empregada doméstica, e este é o Sebastião, seu filho.

Maria ia aproximar-se dela para a cumprimentar à maneira portuguesa, com dois beijinhos, mas eu consegui trava-la a tempo. Ninguém deve ousar cumprimentar uma Condessa dessa forma. Seria deselegante.

- Enchantée - disse ela dirigindo-lhes um sorriso e um aceno de cabeça.

- De nada minha senhora, de nada! - respondeu a Maria sem perceber ao certo o que a outra tinha dito.

Para a salvar do seu constrangimento, passei para o seguinte assunto, falando-lhe em francês:

- Madame, o Presidente da Junta não pôde estar presente para a receber por motivos pessoais. Mas disse-me para lhe transmitir os seus cumprimentos e que está a preparar uma festa de boas vindas em sua honra. Claro que a festa não poderia ser hoje, a madame está cansada da longa viagem, mas será num dia próximo. Então, convido-a a entrar na minha humilde mansão.

- Oh, merci monsieur! Mas espere, eu trouxe alguém comigo. Pauline, viens ici s'il vous plait.

Saiu do carro uma miúda loira e de uns olhos azuis estupendos. Ela não deveria ter mais do que 13 ou 14 anos. Nem poderia acreditar que a Condessa trouxe outra pessoa com ela sem me consultar primeiro. Mais uma!

A menina Pauline disse Bonjour timidamente e de modos educados. Sebastião não tirava os olhos dela. Mais flashes dispararam.

- Bem... entrem! - Foi tudo o que consegui dizer.

Fechei os portões e preparei-me para a maior aventura da minha vida.

 

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