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Milorde

A chegada da Condessa!

Milorde, 31.10.19

- Maria está tudo em ordem? - perguntei pela milésima vez.

- Já lhe disse que sim, homem! Já estou a ficar tonta de tanto o ver a caminhar para trás e para a frente, vai romper a carpete se continua. Sossegue a piriquita!

- Não fale assim Maria! Tenha modos, pelo amor de Deus.

Estava vestido com o meu melhor fato e com a minha melhor gravata que estava de tal modo apertada que mal conseguia respirar. O tempo está fresco mas nem por isso deixo de suar em bica. Estou num estado de ansiedade extrema. A Condessa está a chegar!

Olhando pela janela vejo um mar de gente que, apesar da chuva, não deixaram de estar presentes para testemunhar o grande acontecimento do dia e quiçá do ano. Vejo também jornalistas que aguardam pacientemente, de camera e microfone em punho, para dar a notícia a Portugal inteiro. Nunca na minha vida vi tanta gente prostrada à minha porta.

- Sebastião, quando a Condessa chegar tens de a cumprimentar devidamente com uma vénia não muito exagerada tal como eu te ensinei e dizer "como está, madame" - disse ao rapaz que também estava vestido a rigor e com cara de poucos amigos por ser obrigado a participar daquela cena.

- Eu sei, Milord - respondeu - posso comer alguma coisa, por favor? Estou cheio de fome, ela nunca mais chega.

- Nem penses! Vais esperar como os outros - repreendeu-o a Maria.

Também ela estava vestida a rigor. Não com um vestido, tal como ela queria, mas sim com uma farda (preta e branca) de empregada doméstica que encontrei perdida no sótão. Ao início ela recusou-se a vestir aquilo alegando que cheirava a mofo e a mijo de rato. Fez-me gastar um dinheirão levando-a para a lavandaria (algo que ela poderia perfeitamente fazer em casa), como se me castigasse por a obrigar a usar uma farda, mas eu não posso arriscar fazer figura de ridículo perante a Condessa. A Maria é, de facto, a minha empregada e, então, terá que se vestir como tal.

De repente, ouvimos um burburinho vindo de fora acompanhado com alguns "ah" de exclamação e corremos todos para a porta. O que vi lá fora deixou-me completamente de queixo caído. A Condessa de Champignon chegou... numa limusina! Preta, brilhante.

Atravessamos o pequeno jardim até ao portão que já estava aberto de par em par. Estava instalado o silêncio total. Toda a gente esperava, expectante, para ver a Condessa sair daquela viatura. O mordomo deveria andar pela casa dos 40 anos, de tez morena e com um fino bigode. Estava vestido com um smoking de bom corte, luvas brancas nas mãos finas e um chapéu de chofer. Saiu do lugar do condutor sem dizer palavra e dirigiu-se para o outro lado do carro para abrir a porta de trás.

Mal a Condessa Bernadette saiu da limusina vários flashes obstruíram a minha visão. Ela elevou a sua mão rugosa para proteger os olhos, ligeiramente desconfortável, e reparei que me procurava. Ordenei a todos que parassem com as fotografias com uma voz firme para mostrar a minha posição. A Condessa usava um vestido simples rosa claro.

- Madame, fico muito contente por ver que chegou bem. Como está? - disse fazendo uma vénia.

- Oh, je suis très fatiguée, mais je suis heureuse de bien arriver chez vous, Milord.

Toda as pessoas olharam para ela interrogativos. A Maria deu-me uma cotovelada no braço e acrescentou: - o que é que ela disse??

A Condessa levou a mão à boca para abafar um riso.

- Eu esquecer que estou em Portugal. Desculpe. Estou bem, obrigada.

Toda a gente se riu e aplaudiu enquanto mais flashes disparavam.

- Madame, esta é a Maria, a minha empregada doméstica, e este é o Sebastião, seu filho.

Maria ia aproximar-se dela para a cumprimentar à maneira portuguesa, com dois beijinhos, mas eu consegui trava-la a tempo. Ninguém deve ousar cumprimentar uma Condessa dessa forma. Seria deselegante.

- Enchantée - disse ela dirigindo-lhes um sorriso e um aceno de cabeça.

- De nada minha senhora, de nada! - respondeu a Maria sem perceber ao certo o que a outra tinha dito.

Para a salvar do seu constrangimento, passei para o seguinte assunto, falando-lhe em francês:

- Madame, o Presidente da Junta não pôde estar presente para a receber por motivos pessoais. Mas disse-me para lhe transmitir os seus cumprimentos e que está a preparar uma festa de boas vindas em sua honra. Claro que a festa não poderia ser hoje, a madame está cansada da longa viagem, mas será num dia próximo. Então, convido-a a entrar na minha humilde mansão.

- Oh, merci monsieur! Mas espere, eu trouxe alguém comigo. Pauline, viens ici s'il vous plait.

Saiu do carro uma miúda loira e de uns olhos azuis estupendos. Ela não deveria ter mais do que 13 ou 14 anos. Nem poderia acreditar que a Condessa trouxe outra pessoa com ela sem me consultar primeiro. Mais uma!

A menina Pauline disse Bonjour timidamente e de modos educados. Sebastião não tirava os olhos dela. Mais flashes dispararam.

- Bem... entrem! - Foi tudo o que consegui dizer.

Fechei os portões e preparei-me para a maior aventura da minha vida.

 

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A Carolina

Milorde, 29.10.19

Meu querido povo da blogosfera.

Não tenho escrito muito pois como sabeis ando bastante atarefado em preparativos. Já me empanturrei de rissóis, croquetes, coxinhas, pataniscas, panados, moelas, camarões, etc. E ainda só vou nos aperitivos! Tenho que provar tudo o que a Maria faz para dar o meu aval. A minha despensa nunca esteve tão cheia de comida, toda a gente daqui da aldeia quer contribuir com alguma coisa para a receção da Condessa, até os tomates biológicos da D. Aurora vieram cá parar. Pobre povo, não se passa nada nesta aldeia e qualquer acontecimento deixa-os num estado eufórico! Claro que não me importo com isso, nem um pouco, mas o meu estômago já começa a reclamar e ontem estive com uma diarreia que quase me limpou as tripas!

O Misha está a ficar tão gordo que mal se arrasta. A Maria quase que cozinha de manhã à noite para as coisas também não se estragarem, e quando as nossas barrigas estão mais inchadas que os balões do S. João, damos tudo ao pobre gato que nunca diz que não.

Entretanto já conheci a Carolina, a namorada do Sebastião. Trouxe-a cá a casa numa tarde chuvosa para nos apresentar. Uma menina baixa, cheiinha e muito tímida. Estava com o cabelo oleoso por causa da chuva e tinha uma franja que me fazia lembrar a cadela da Sr.ª Albertina de cada vez que ela lhe cortava o pelo. Quando lhe disse que aquele corte de cabelo não lhe favorecia, o Sebastião ficou tão furioso que quase me deu um pontapé nas virilhas se eu não fugisse a tempo. Ela riu-se e olhou o namorado com uma expressão de orgulho por ele a ter defendido. Ora essa, agora a formiga já tem catarro, querem ver?!

- Mãe, a Carolina pode ir ver o meu quarto? - perguntou.

Arregalei os olhos, surpreendido com a pergunta.

- Claro... que não! - disse a Maria. Suspirei de alívio. Conhecendo o Sebastião como já o conheço, eu sabia qual era a sua ideia de "mostrar o quarto". De certeza que ele ia querer mostrar-lhe aqueles vídeos que ele vê vezes sem conta.

- Oh mãe, que seca!

- Está calado! Vocês os dois ainda são muito novos para andar a brincar aos adultos - disse a Maria, e virando para a menina: - Carolina querida, não sei se a tua mãe já te explicou alguma coisa sobre a vida sexual mas, se ainda não, eu posso perfeitamente fazê-lo. Não é correto uma menina entrar assim num quarto de um menino, sabemos bem que a carne é fraca, mas tu tens de resistir porque é muito bonito quando uma mulher chega ao casamento virgem, vestida de branco, com um ramo de flores de laranjeira.

Eu não acredito que aquilo estava a acontecer ali na minha sala. A miúda ficou tão vermelha que ficou a olhar para o chão sem nada dizer.

- Eu casei virgem! - continuou ela - nunca antes vi o meu homem nu.

- Oh mãe, por favor, para com isso!

- Cala-te Sebastião Manuel. Não é verdade o que eu digo, Milord? Viu a sua mulher nua antes do casamento? É verdade... o senhor alguma vez foi casado, Milord? Engraçado, nunca tinha pensado nisso.

Engasguei-me com um pedaço de cebola de uma patanisca. Comecei a tossir até as lágrimas me brotarem dos olhos. A Maria foi a correr buscar-me um copo de água e, depois de o beber e me acalmar, dei a conversa por terminada e mandei-a para a cozinha preparar o jantar.

A Carolina ficou mais um pouco sentada no sofá a fazer festas ao Misha com o Sebastião ao lado. Diria que ele está mesmo apaixonado pela maneira como a olha. Quando começou a escurecer, ela disse que tinha que ir embora. Despediu-se de mim dizendo-me que foi um gosto conhecer-me e que tinha uma linda mansão. A rapariga é educada. Dirigiu-se para a cozinha para se despedir também da Maria.

Ai! A chegada da Condessa está para breve. Nem vos conto o meu estado de ansiedade.

 

O Presidente

Milorde, 26.10.19

Hoje recebi a visita do Presidente da Junta, Américo Tomás. Nunca antes o Sr. Presidente pôs os pés na minha humilde mansão mas hoje, sem que nada o previsse, fez soar a sineta que tenho junto ao portão. A Maria veio a correr, atrapalhando a minha leitura, e sussurrou-me que quem tinha tocado a sineta era nada mais nada menos que o nosso Presidente acompanhado da sua esposa. Ordenei-a que os fosse receber e os convidasse para entrar, oferecendo-lhes uma chávena de chá, enquanto eu iria trocar de roupa.

Sebastião estava a dormir e eu fechei a porta do seu quarto para que ninguém ouvisse os seus roncos. Quando desci, deparei-me com a Maria sentada no sofá em frente deles pedindo-lhes ajuda pois agora estava separada do marido e ele não a ajudava em nada. Mandei-a para a cozinha e cumprimentei os meus convidados com pompa e circunstância como o momento assim o exigia. O Sr. Presidente apertou-me a mão com força e deu-me uma palmadinha no braço como se fossemos velhos conhecidos. A sua esposa simplesmente acenou-me com a cabeça e fez um leve sorriso. Perguntei-lhes em que os poderia ajudar.

- Milord, desculpe-nos a ousadia de o visitar sem sermos devidamente convidados mas creio que temos um assunto a tratar que será positivo para ambas as partes.

A sua esposa continuava a acenar com a cabeça e eu tive que resistir ao impulso de lhe perguntar se ela sofria de parkinson.

- Sou todo ouvidos senhor Presidente.

Ele refletiu por momentos antes de voltar a falar, olhando para cima como se as suas palavras pairassem por ali no ar.

- Soubemos que Milord iria receber uma visita muito especial de uma Condessa - acrescentou.

- As notícias correm depressa, senhor. Até aposto quem foi que lhe disse - só poderia ser a Aurora do minimercado.

- Oh não leve a mal. Sabe que vivemos numa aldeia pequena e tudo se sabe...

- Compreendo.

- Bem, adiante. Quando soubemos dessa notícia, eu e a minha Lulu, decidimos que tal acontecimento não poderia passar em branco, se é que me entende. Vamos organizar uma festa de boas vindas para a Condessa! Tudo pago pela presidência claro está, Milord não terá de se preocupar com nada, é só comparecer com a Condessa e a sua... família?... as pessoas que habitam aqui consigo.

De repente, um largo sorriso se apoderou de mim.

- Mas isso é uma excelente ideia! Obrigado pela atenção senhor Presidente.

- Oh de nada! Será um prazer.

Depois de decidirmos alguns aspetos importantes, levantei-me para dar a conversa por terminada. Eles fizeram o mesmo. Voltou a dar-me o mesmo aperto de mão vigoroso e a sua esposa, Lulu, o mesmo aceno de cabeça e aquele sorriso artificial que me estava a dar cabo dos nervos. Saíram da minha mansão sem mais uma palavra mas, já quase a chegar ao portão, o senhor Presidente virou-se para trás e disse:

- Ah! E não se esqueça de mim nas próximas eleições!

Claro.

Os tomates

Milorde, 24.10.19

Temos estado num alvoroço cá por casa. Quase que me intoxico com o cheiro a lixívia que paira no ar, porque tudo deve estar devidamente desinfetado para receber devidamente a Senhora Condessa que está doente. Misha quase que não entra em casa e, quando o faz para comer alguma coisa, fica com os olhos a chorar e foge logo lá para fora, coitado do bicho!

Quando demos a boa nova ao Sebastião ele simplesmente perguntou: ela é boa? Respondi-lhe que sim, que a Condessa de Champignon é uma excelente pessoa, meiga, carinhosa, de trato fino mas muito gentil. Disse-me que não estava a perguntar sobre a sua personalidade mas sim pelos seus atributos físicos.

- Tenha respeito pela Condessa, menino Sebastião! Ela tem idade para ser sua avó!

- Oh que seca! - foi tudo o que me respondeu e foi logo enfiar-se no seu quarto. Esta juventude está perdida é o que vos digo.

Depois de muita insistência da Maria, que dizia que teríamos de encher a despensa cheia de comida boa, tive que vender duas peças de prata valiosíssimas que pertenciam ao meu tetravô por uma pechincha e logo depois encaminhamo-nos para o minimercado aqui da aldeia.

A senhora Aurora recebeu-nos jovialmente com um abraço e dois beijos repenicados. Dizia estar contente por receber a visita de Milord que há já algum tempo não aparecia por estas bandas. "É a crise", foi tudo o que consegui dizer. Depois de mais algumas palavras de circunstância, em que a Maria praticamente contou toda a sua vida depois da separação e a senhora Aurora fingia surpresa como se nada soubesse, ia colocando algumas compras no cesto de que precisava quando olhei para uma bancada cheia de tomates com um ótimo aspeto.

- São tomates biológicos, Milord - disse a dona do estabelecimento - comprei-os a um agricultor aqui da zona. Produto de qualidade!

- Qual é o preço? - perguntou a Maria enquanto pegava numa saca plástica depois de humedecer os dedos com a boca.

- 4,49€ o quilo.

O quê?! Perguntei-lhe se estava a brincar. A Maria disse que era um disparate! Não se justificava um preço assim tão alto por um quilo de tomates que nem sabíamos se eram bons.

- É o preço deles. Na minha loja só vendo produtos de qualidade! Se não querem pagar esse preço então vão lá aos supermercados comprar daqueles que vem da Holanda cheios de químicos!

- Pois não vamos levar nem uma coisa desta loja - sentenciei - que atrevimento!

- Vamos Milord - disse Maria e, depois, virando-se para a senhora Aurora - logo à noite quando estiver a apalpar os tomates do seu marido, veja se eles estão cheios, pois tenho-o visto a sair com a sua empregada da limpeza.

- Oh! Como se atreve?! Ponham-se a andar da minha loja imediatamente!! Fora!

Chegamos a casa sem compras. Acabamos por comer coelho à caçador refogado com um pouco de vinho tinto que ainda me resta na cave. A Maria disse-me que era uma boa caçadora!

 

A carta

Milorde, 22.10.19

Os dias vão passando sem que nada aconteça. Dou por mim sentado em frente à janela a ver a "banda" a passar com o Misha no meu colo a ronronar. As folhas vão caindo das árvores e ouço a toda a hora a Maria a resmungar que já está farta de apanhar tanta folha do chão. O anjo de pedra que faz xixi para a minha fonte tem uma folha na cabeça à qual ela não chega e por vezes ela põe-se a saltitar para tentar apanha-la de uma forma tão cómica que me rio como um perdido sozinho. Ela pragueja entredentes e lá acaba por desistir.

Entretanto, um senhor que deve andar na casa dos 60 anos, assobia-lhe através das grades e grita-lhe alguns piropos. Ao início ela ignora-o, mas depois farta-se e diz-lhe:

- Vai-te embora seu guarda-chuva sem cabo!

- Anda aqui ver se eu tenho um cabo ou não - respondeu-lhe de volta.

- Se não te pões a andar quem te mostra o meu cabo sou eu, o cabo da vassoura, seu imbecil!

Pergunto-me como é que esta mulher de modos tão rudes foi casada com um homem durante quinze anos e ao fim deixou que ele a pusesse fora de casa. É uma história que vou ter que averiguar mais tarde.

Quando ela entra digo-lhe para nos preparar um chá de camomila porque ela ficou muito nervosa com o sucedido.

- EU NÃO ESTOU NERVOSA, SENHOR! - Grita-me e eu tenho de esconder a cara com as mãos para me proteger dos perdigotos que ela soltou. Contudo, dirige-se para a cozinha e ouço-a a encher água para a chaleira.

Entretanto alguém bate à porta. Que mania que esta mulher tem de deixar o portão fechado só com o trinque. As pessoas entram e batem diretamente à porta e eu não gosto nem um pouco dessa intimidade! Dirijo-me eu próprio à porta e, quando a abro, vejo que é o carteiro.

- Carta para Milord - anuncia.

Agradeço-lhe e vejo que a carta vem de França! Cheiro-a para ver se consigo sentir algum aroma que me faça lembrar do país que tanto amo mas só cheira a papel e a tabaco. Abro-a e, surpresa das surpresas, é uma carta da minha amiga Condessa Bernadette.

 

Meu querido Milord.

Espero que se encontre bem e de saúde. O mesmo não posso dizer de minha pessoa. Aqui em França já faz tanto frio que apanhei uma profunda pneumonia! Ai eu tenho tanta tosse, Milord, e quando respiro os meus pulmões miam tanto que parecem a minha gata quando anda com o cio. Estou tão mal que o meu médico aconselhou-me a sair deste país e procurar outro lugar mais ameno.

Claro que pensei logo na minha mansão na Madeira, mas Milord, eu detesto andar de avião, detesto mesmo! Causa-me urticária só de pensar em entrar num pássaro grande daqueles cheio de pessoas que respiram o mesmo ar que eu, e eu não posso deixar me contaminar mais.

Por isso, pensei em si, meu querido e amado amigo. Pensei na sua enorme mansão e pensei também que não ia se importar minimamente se passasse um mês na sua companhia. Um mês será suficiente para me recuperar e aí já poderei voltar para este país que mais parece um frigorífico na potência máxima.

Espero que não lhe vá causar nenhum transtorno. Parto daqui a cinco dias.

 

Atenciosamente,

Bernadette Croquette

Condessa de Champignon

 

Meu Deus! A Condessa vem passar um mês em minha casa!! Tenho que preparar tudo para a receber devidamente!!! Mas... como vou poder recebê-la condignamente se não tenho dinheiro nem para tocar um cego?! Tenho de me arranjar. Chamei pela Maria para lhe dar a boa nova.

 

O peditório

Milorde, 19.10.19

Hoje acordei bem melhor da minha constipação e com a barriga a roncar. A minha empregada doméstica não me alimentou devidamente ontem porque, segundo ela, com o meu estado febril ainda podia vomitar tudo e ela não era paga para limpar a porcaria dos outros.

Encontrei-a na cozinha a falar sozinha para a televisão. Estava a dar ordens ao ator que, com uma arma em punho, caminhava lentamente por um corredor escuro, gritando para ele não entrar por aquela porta que o outro estava lá.

- Sente-se bem Milord? - perguntou sem desviar os olhos da televisão. Respondi-lhe que sim e que estava cheio de fome. Mandei-a servir o pequeno almoço. Entretanto, no filme, os dois homens envolveram-se numa luta e Maria fazia gestos com as mãos a dar murros imaginários no ar como se ela própria estivesse envolvida na luta.

À mesa Sebastião estava entretido a ver qualquer coisa no seu smartphone que me deixou intrigado. Só se ouvia uma mulher a gritar e a dizer palavras em inglês com uma respiração ofegante.

- Está a ver algum filme de terror Sebastião? - perguntei.

Ele levantou os olhos do ecrã e olhou-me desconfiado, pensando talvez que estaria a ser irónico.

- Não é bem isso, Milord.

Maria apareceu com uma jarra de leite quente. Pousou-a na mesa e deu semelhante bofetão na cabeça do rapaz que me assustou.

- Desliga já isso seu ordinário! Sais bem ao teu pai.

Ele assim fez e continuou a tomar o seu pequeno almoço em silêncio e com um olhar carrancudo.

Entretanto bateram à porta. Mandei-os recolherem toda a comida de volta à cozinha. Fosse quem fosse Milord não ia oferecer nem uma caneca de leite com café. Dirigi-me à porta, espreitei pelo buraco da fechadura antes de a abrir, e vi que eram duas mulheres vestidas elegantemente com alguns papeis na mão. "Que estranho", pensei. Abri a porta e, educadamente, perguntei-lhes o que desejavam.

- Bons dias, senhor. Viemos fazer um peditório para as festas da aldeia vizinha. Gostaríamos muito que contribuísse.

Que despautério! Disse-lhes que antigamente pagavam-me para comparecer nas festas e que seria ultrajante que elas tivessem o descaramento de comparecer na minha humilde mansão para fazer um peditório.

- Mas senhor - interveio a outra - ainda não se deu conta de que estamos em pleno século XXI?!

Fechei-lhes a porta na cara mas ainda ouvi elas comentarem entre si que eu era um mal educado e um forreta. Era o que me faltava!

Perguntei à Maria o que seria o nosso almoço, ao que ela me respondeu prontamente que seria língua de vaca com ervilhas, acompanhado com arroz branco. Não ousei lhe perguntar onde ela conseguiu arranjar a tal língua de vaca mas, como que adivinhando os meus pensamentos, disse-me que a viu a um bom preço no talho do Sr. Constantino, que não me preocupasse que não deixou nenhuma vaca muda.

- Que nojo mãe! Odeio língua de vaca - mal Sebastião proferiu estas palavras, pumba!, outra chapada na cabeça. Não lhe disse que também eu odeio língua de vaca.

 

Milord está doente

Milorde, 18.10.19

Meu querido povo da blogosfera.

Milord está doente! Esta manhã, à mesa do pequeno almoço, espirrei umas quatro vezes. Maria veio em meu auxílio, colocou-me a mão na testa, e disse: "Milord constipou-se! Bem lhe avisei que andar só vestido com esses collants brancos não seria suficiente para o proteger do frio. Você é teimoso!"

Fiz-lhe notar que essa era a indumentária de um Senhor nobre. Jamais um Milord podia usar umas jeans, simplesmente não seria ético, mas esta mulher não percebe. Simplesmente encolheu os ombros e respondeu-me: "se ao menos depilasse as pernas..."

Sem ligar aos meus protestos, obrigou-me a voltar para a cama, e depois trouxe-me um chá bem quente de limão e colocou-me um trapo molhado na testa para baixar a febre.

"Agora tente descansar e se porventura sair desta cama para o que quer que seja, dou-lhe com o chinelo no rabo como faço ao Sebastião! - advertiu-me ela. Mas que despautério! Tenho a sensação de que já não mando na minha própria casa.

Quando Sebastião chegou da escola foi-me visitar ao quarto e disse-me que era "bué da fixe" estar doente e que ele não se importava nada de estar no meu lugar, assim não teria que ir para a escola aturar os chatos dos professores. Mas que, pensando melhor, se não fosse à escola não veria a sua nova namorada.

"Chama-se Carolina e já tem umas mamas que me deixam doido!"

Disse-lhe que o aspeto físico não era importante, o que conta é o interior da pessoa, ao que ele me respondeu prontamente: "eu olho para o coração dela Milord, mas se as suas mamas estão a frente que posso eu fazer?"

Mais tarde Maria trouxe-me uma canja de galinha fingida. Perguntei-lhe o porquê desse nome e ela explicou-me que como não tinha galinha, aproveitou os restos do pato para fazer aquela canja. Estava boa.

Por isso, meus amigos, Milord estará um pouco cansado e sem energia hoje mas, espero, amanhã estarei bem melhor para vos divertir um pouco mais.

 

Os dias de Milord

Milorde, 17.10.19

Já não aperto assim tanto o meu cinto. Milord já engordou um pouco à custa dos belos cozinhados de Maria. A minha nova criada pode ter muitos defeitos mas cozinha tão bem que dou por mim a lamber o prato e muitas das vezes até repito uma segunda vez. No outro dia confecionou um pato com laranja que estava divinal! Perguntei-lhe onde ela arranjou o tal pato e ela disse-me que no parque da cidade existem muitos a grasnar e a pedir pão aos transeuntes e que ninguém daria pela falta de um. Começo a gostar mais dela, a mulher é desenrascada.

O mesmo não posso dizer de Sebastião, o seu filho adolescente. O rapaz é irrequieto e está sempre a fazer asneiras. Ainda ontem apanhei-o na minha sala de estar com as calças baixadas e com uma fita métrica a medir a sua pila. Quando soltei um "oh" de espanto ele simplesmente virou-se para mim com um sorriso arreganhado e disse: já tem 15 cm! Gritei pela Maria que veio logo a correr com um chinelo na mão enquanto ele corria pelas escadas acima tentando, atabalhoadamente, vestir de novo as calças.

Misha, o meu gato de estimação, esconde-se sempre debaixo da cama quando lhe digo que está na hora do seu banho. Tento sempre suborna-lo com uma tigela de leite para que ela saia de lá mas o gato simplesmente mia e enrola o rabo, aninhando-se para dormir mais uma soneca, como quem diz: vai à merda!

A chuva continua e os dias começam a ficar mais curtos. A EDP vai ficar contente com isso mas Milord vai deprimir quando vier a fatura para pagar.

Milord já tem criada!

Milorde, 15.10.19

Em boa hora vos escrevo, meu querido povo da blogosfera, para vos transmitir que Milord, sua excelência de renome, já tem uma criada! E um gato. Mas nisso falarei mais tarde.

Foi tudo muito simples. Estava eu a praticar uns passos de dança agarrado a uma vassoura quando bateram à porta da minha humilde mansão. Três pancadas não muito fortes que me alertaram, pois Milord há muito que não recebe visitas, a não ser o cobrador das finanças que todos os meses vem me roubar objetos preciosos e ainda tem o descaramento de me dizer: tenha um bom dia!

Espreitei pelo buraco da fechadura e vi que se tratava de uma mulher de meia idade, de braços cruzados sobre o peito voluptuoso, vestida com um avental axadrezado e com cara de poucos amigos.

"Não adianta fingir que não está em casa Milord porque eu sei que está. A sua carruagem está lá fora à demasiado tempo que até os cavalos quase desmaiam com o cheiro da bosta acumulada na sua entrada. Não tem vergonha?" - repreende-me ela. Mas que descaramento!

Abri a porta de rompante e preparei-me para lhe dizer que se fosse embora rapidamente antes que eu chamasse a polícia. Contudo, nem tive tempo de dizer um ai, ela entrou pela minha casa adentro e passou um dedo por um dos móveis e inspecionou-o verificando que estava cheio de pó e sujidade. Compreendam que Milord não consegue limpar tudo! Estas costas!!

"Tenho uma proposta para lhe fazer" - disse-me. "Ofereço-me para ser sua empregada interna em troca de comida e roupa lavada para mim e para o meu filho que tem treze anos".

Mas como vou arranjar comida para mais duas bocas? Ela está doida. Disse-lhe isso mesmo com a intenção de a fazer desaparecer. Esta mulher não faz o buço... quelle horreur!

"Não se preocupe que eu cá me arranjo. O meu marido expulsou-me de casa porque arranjou outra mulher e nós não temos onde ficar. O meu filho está lá fora com os cavalos".

Perguntei-lhe se ela andava metida nas drogas e ela olhou-me com um ar de assassina que pedi logo desculpa se a tinha ofendido. Começo a ter medo desta mulher.

"Temos acordo ou não?" - perguntou-me com as mãos nas ancas.

Bem, quartos nesta mansão é o que não falta, e eu preciso mesmo de uma criada! Aceitei a proposta e ela ficou tão contente que me deu uma palmada nas costas com tanta força que tive medo que me partisse duas costelas.

"Vá chamar o seu filho e sirvam-se de uma sopa que acabei de fazer. A propósito, como se chama?"

"Maria, às suas ordens senhor" - disse com uma vénia muito mal feita e riu-se do seu gesto ridículo. Depois, dirigiu-se para a porta e chamou: "Sebastiaaaaaaaaaaaaaão!!!"

"Credo mulher não precisa de gritar tanto"!

 

Ai a minha vida! Parece que vou ter muitas histórias para contar daqui em diante.

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