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Milorde

Na padaria

Milorde, 15.10.21

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Todas as manhãs na padaria de Barbalimpa reúnem-se 5 mulheres para tomarem o pequeno almoço e falarem mal da vida dos outros. Claro que elas não vão dizer que falam sobre a vida das outras pessoas, elas são Madames corretas que vão à missa das 8h todos os domingos, mas aquilo é um corte e costura com tesouras tão afiadas que quem passa perto arrisca-se mesmo a levar um corte!

- Sabes do escândalo que aconteceu na casa dos Pereira?

- Não, não soube de nada...

- Não é que o marido apanhou a mulher na cama com o amigo deles!

- Não posso! Quando? Como?

Para contar estes pormenores mais sórdidos elas baixam o tom de voz, mas quando é para dizer algo banal aquilo mais parece a feira da ladra! Certo dia quando lá fui buscar o pão, uma das senhoras ria-se tanto que cuspiu o leite com café todo para cima de outra, e uma delas teve que ir a correr para a casa de banho com a mão entre as pernas para não urinar nas calças.

- Deus me livre, que escândalo! Elas andam com o fogo no cu. Olhem que em toda a minha vida só o meu marido me tocou, e era sempre com a luz apagada!

- Ai eu também. O meu marido nunca me viu nua! Agora elas andam todas despidas na rua.

Elas ficam lá cerca de 2 horas e depois vão-se embora para os seus afazeres. Na padaria fica um silêncio acolhedor e as funcionárias suspiram de alívio.

 

Obrigado!

Milorde, 12.10.21

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Uma pequena publicação para agradecer todo o carinho que demonstraram através dos vossos comentários cheios de solidariedade. Obrigado a todos vocês meus leitores e também à equipa do Sapo Blogs que destacaram a minha homenagem e a fizeram chegar a mais pessoas, tornando-se mesmo uma das publicações mais lidas neste últimos dois dias.

São situações sempre muito difíceis para as quais nunca estamos preparados, mas a vida é mesmo assim e temos que seguir em frente. Voltarei ainda com mais garra para continuar este projeto que me tem trazido muitas alegrias.

Obrigado a todos, de coração!

 

Em memória da minha tia

Milorde, 10.10.21

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- Tia, quando crescer quero ser professor como a senhora.

A minha Tia foi professora primária durante toda a sua vida. Houve quem dissesse que era severa, autoritária, mas para mim sempre foi um doce de pessoa. Ela gostava de mim. Disse à minha mãe que me pagava os estudos se eu quisesse mesmo ser professor. Os caminhos traçados da minha vida não me levaram por aí e ainda hoje lamento que tal não tenha acontecido.

Quase todos os domingos ia visita-la, não só para estar com ela, mas porque ela tinha sempre sumo e bolachas com pepitas de chocolate na sua despensa que me dava para lanchar. Posso comprar muitos pacotes dessas bolachas, mas nenhum deles vai ter o mesmo sabor. Aliás, se as comprar hoje, dificilmente conseguirei engoli-las.

Uma terrível doença acamou-a e fez com que se esquecesse da maioria das pessoas, mas quando fui visita-la ela lembrou-se de mim, e na sua voz característica disse-me: anda cá dar-me um beijo. Foi a última vez que a beijei.

A minha Tia partiu esta madrugada. Já lhe agradeci mentalmente um milhão de vezes por tudo aquilo que fez por mim e pela minha família. Quero acreditar que algures, num outro plano talvez, ela esteja mais feliz e que possa continuar a ajudar outras pessoas.

É com as mãos a tremer que acabo este texto, não de humor, mas sim de um profundo pesar. E espero que ela sinta orgulho de mim que, apesar de não ser professor, consigo escrever um texto em memória dela tão bonito que seja capaz de a fazer sorrir.

 

A bebedeira do Chico

Milorde, 07.10.21

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O Chico ontem à noite já estava com uma bebedeira tamanha que ao falar babava-se todo, como se a sua língua fosse grande demais para a sua boca. O filho dele pediu ao Jorge, dono do café restaurante, para lhe preparar um prato de frango de churrasco para o jantar mas o Chico pouco comeu, a caneca de vinho tinto essa foi esvaziada em poucos minutos.

- Ó Fernando, é melhor levares o teu pai para casa - alguém lhe disse - senão ele ainda vai se sentir mal de tanto vinho que está a beber.

O Fernando bem queria levar o pai para casa mas o Chico debatia-se, dizia que não queria ir, que queria ver o jogo do Porto até ao fim, até ao ponto em que a certa altura o homem caiu no chão a espernear as pernas e a babar-se da boca.

- Chamem os bombeiros! - Berrou o Zé, também ele já a balançar-se, que o "vento" era muito!

Os bombeiros chegaram com os faróis acesos e a sirene a tocar e eu só queria que vocês vissem a cara deles quando o Chico se levantou do chão e disse que estava bem, mas o "vento" era tanto que o homem balançava como varas verdes.

- Eu não sei se devemos levá-lo ao hospital ou não - disse a bombeira mas, após uma chamada telefónica para uma médica, lá decidiram levar o Chico ao hospital. O Fernando não seguiu com ele, pediu para lhe ligaram quando o pai estivesse pronto (como se o senhor fosse a uma consulta e não a uma urgência hospitalar) e pediu mais uma cerveja ao Jorge.

No dia a seguir a Maria perguntou ao Fernando se o seu pai já estava melhor e ele respondeu que sim, já estava em casa a curar.

- E sabes o que ele disse no hospital? Que eu lhe tinha batido! Agora tenho que ir ao posto da GNR prestar declarações.

 

Um escândalo!

Milorde, 04.10.21

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O Artur, mais conhecido por ganso por ter um pescoço comprido que levanta sempre que passa um carro pela rua para ver quem é, foi apanhado pelo seu amigo e companheiro de casa a ter sexo com a mulher dele. Foi um escândalo enorme aqui na vila de Barbalimpa com direito a espetáculo do bom em praça pública, e não foi preciso comprar bilhete para assistir! Houve ameaças de morte com armas brancas, choro, gritos, tentativa de suicídio e a presença da GNR para aclamar os ânimos, não vá o diabo tece-las.

A Carla só chorava e a certa altura gritou ao seu marido que ele não a satisfazia na cama e ela teve que se desenrascar! O marido, coitado!, tentava a todo o custo ver-se livre dos homens que o agarravam para deitar as mãos ao pescoço do ganso para o esfolar.

Ao que a Maria conseguiu apurar mais tarde, o marido chegou a casa mais cedo do trabalho e ouviu uns gemidos estranhos. A princípio pensava que era o gato deles que estava com o cio mas depois percebeu que o cio era outro! O ganso voou pela janela fora ainda com as calças na mão e só parou no café do Jorge para beber uma mini fresquinha, assim para despistar, mas não adiantou. O marido pegou na foice de cortar a erva e dirigiu-se furioso para lá com a mulher aos gritos atrás: chamem a GNR, chamem, que o meu marido vai cometer uma desgraça!

A GNR lá veio e tomou conta da ocorrência e se o marido não tivesse escondido a foice ia passar uma noite na esquadra para pensar na vida. Quanto ao ganso, veio pedir asilo na minha casa, mas eu logo lhe disse que não tinha uma capoeira e ele foi-se embora a abanar a cabeça e a fumar o seu cigarro deixando um rasto de fumo pelo ar.

 

A Branca

Milorde, 02.10.21

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Depois da publicação de quinta-feira, que gerou um grande debate por estas bandas, decidi hoje escrever sobre outra situação algo parecida mas com um toque de humor, que é para isso que cá estou e não para lançar a discórdia como se isto fosse o Facebook da Cristina Ferreira.

Ora aqui há uns anos saí à noite com uns amigos para beber um copo num bar. Entre os meus amigos estava a Branca, uma mulher muito simpática e doce que tenho o prazer de chamar de amiga. A certa altura, um homem africano aproximou-se de nós e dirigiu-se a essa minha amiga com a intenção de conhecê-la, oferecendo-lhe uma bebida. Quando ele lhe perguntou o nome, ela respondeu:

- Branca.

O homem africano olhou muito surpreendido para ela e logo depois respondeu-lhe com cara de poucos amigos:

- Também não precisas de falar assim - e foi-se embora.

A Branca ficou tão constrangida e perturbada que eu tive que a convencer de que ela não tinha culpa e nada do que se envergonhar, apenas se tratava do próprio nome dela.

 

Racismo

Milorde, 30.09.21

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Não sou muito de escrever sobre este assunto porque quero acreditar que aquilo que presenciei hoje seja uma situação que acontece com menos frequência, e ainda bem que assim é, mas infelizmente ainda acontece!

Hoje fui almoçar a um restaurante que serve diárias a um preço acessível e onde a maioria dos trabalhadores da zona vão lá almoçar. O restaurante estava cheio, era uma azáfama lá dentro onde os empregados corriam de um lado para o outro para servir o maior número de clientes possível.

Foi pedida uma sopa a uma funcionária atarefada. Ela disse "trago já" e continuou o seu trajeto. Com a confusão, e eu percebo isso muito bem até porque já fui empregado de mesa, a funcionária esqueceu-se da sopa. O trabalhador e cliente ficou com cara de poucos amigos. Levantou-se, disse aos seus colegas que já não lhe apetecia a sopa, e dirigiu-se ao balcão. Quando viu a funcionária disse bem alto:

Ó preta tira-me um café!

A funcionária olhou muito séria para o rapaz e não teve coragem, ou não quis, de lhe responder e continuou a sua vida. Estava imensa gente naquela sala e todos fizeram ar de não ter ouvido absolutamente nada. Eu, sozinho, também não tive coragem de o abordar. Se tive medo, tal como os outros? Talvez sim. A verdade é que também me calei e fui para casa com o coração angustiado por saber que ainda existem pessoas capazes de tamanha falta de respeito.

Milorde tenta fazer o CV

Milorde, 29.09.21

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Lá se vai o tempo em que Milorde era sustentado com o dinheiro dos impostos do povo. Agora, como bem sabeis, estou na ruína! Já cheguei ao ponto de contar quantas colheres de açúcar a minha criada Maria coloca no seu chá ou café porque, não sei se já se deram conta, o preço do açúcar está pela hora da morte. À noite prefiro acender uma vela para poupar energia. Já coloquei um balde lá fora para apanhar a água da chuva e assim utilizá-la para me lavar por baixo antes de ir para a cama.

Pois bem, estou farto desta vida! Tenho que arranjar um emprego.

- Milorde, para poder arranjar um emprego tem que fazer um currículo - disse-me o Sebastião enquanto brincava com a sua torrada a meio do pequeno-almoço.

- Mas como é que eu faço isso?

- Dah! No computador!!

Ok. Sento-me em frente do computador e escrevo no Google: como fazer o currículo. A primeira coisa que me aparece é um anúncio que me diz:

Se procura emprego, nós temos uma oferta especial para si!

Cliquei no anúncio e logo aparece uma senhora seminua dizendo que quer marcar um encontro comigo para fazermos a festa.

Saio da página e clico noutro link onde diz que nesse site fazem o melhor currículo do mundo que me dará emprego garantidamente. Aparece-me uma outra mensagem:

Sofre de disfunção erétil? Com esta pomada diga adeus às noites em que o seu amigo lhe diz game over!

Mas o que é isto?! Decididamente que a internet enerva-me profundamente.

Será que não posso escrever o meu CV à mão?